O sofrimento em busca da perfeição é constante para os mais obstinados, não importa em que área seja. No caso do kabuki, o tradicional teatro japonês em que homens se vestem e atuam como mulheres há centenas de anos, isso fica muito claro com a chegada de Kokuho: O Preço da Perfeição. Concorrente ao Oscar deste ano na categoria Melhor Maquiagem e Figurino, o filme conta a história de um jovem cuja a vida passa a ser totalmente dedicada a essa arte, para o bem e para o mal.
Filho de um mafioso de Nagasaki, Kikuo (papel dividido por Sōya Kurokawa e Ryô Yoshizawa, em dois períodos) vê-se em uma situação complicada quando testemunha o assassinato de seu pai pelas mãos de uma família da Yakuza rival e, junto do lendário ator de Kabuki, Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe, de Godzilla e O Último Samurai), que estava de vizinha à sua família, mergulha de cabeça no mundo desse magistral teatro nipônico. O filme dirigido por Lee Sang-il (que se tornou internacionalmente conhecido por Hula Girls) não poupa detalhes em mais de três horas de duração e deixa claro que para se tornar o melhor, o garoto teve que se sacrificar.

Junto de Shunsuke (Keitatsu Koshiyama, de Quem é o Idiota?), o filho de seu novo mestre, Toichiro, como acaba sendo batizado, carrega uma espécie de rivalidade, que eventualmente vem a se tornar parceria, já que os dois vêm a atuar lado a lado por décadas depois de passar pelo árduo treino junto de Hanjiro. Nessa trajetória de muitos anos, os garotos se tornam homens, dividindo a mesma ambição e paixão, o que os leva a inevitáveis conflitos entre si e com todos ao seu redor, colocando-os em lados opostos em diversos momentos da trama, em constante tormento por carregarem o fardo de serem sucessores de seu mestre.
A cada passo nesse mundo da arte e da beleza profunda, Toichiro se vê principalmente em batalha com si mesmo, conflagrada, enfim, em seus relacionamentos profissionais e até amorosos, levando-o a trocar de situações estáveis em ambos repentina e intensamente no decorrer de Kokuo: O Preço da Perfeição. Vemos o talentoso ator em situações glamorosas tanto quanto em outras nem tanto, em que a humilhação é constante, consequência não só as circunstâncias de sua vida passada, mas também de suas atitudes, como alguém que atém o sucesso mas não consegue controlar suas emoções, levando-o ao atrito consigo mesmo e com outros à sua volta.

Levando em conta a temática do filme, é surpreendente a capacidade das atuações do elenco e o talento da equipe de produção em manter nossa atenção focada por tanto tempo na tela como acontece neste filme. Passamos por momentos de silêncio e contemplação ao da emoção absoluta de apresentações de kabuki em sequência sem notar a longa duração de Kokuho, e mesmo notando alguns momentos repetidos, como uma peça em específico exibida mais de uma vez, em partes específicas da carreira do protagonista, algo tratado de maneira pertinente para conduzir a trama e mostrar a conclusão da trajetória dele.
Em momento algum A Busca pela Perfeição desperdiça nossa atenção, algo que é digno de nota em uma crítica de um filme tão pertinente quanto este, que mesmo levando uma temática fora da esperada, leva consigo uma mensagem em sintonia perfeita com os tempos atuais, sob o belo manto do dançarino kabuki. A desenfreada corrida para alcançar o estimado título de kokuho, ou seja, tesouro nacional, dado a artistas japoneses ainda em vida, é mostrada intensamente, apaixonante e, principalmente, assustadora. Esse é o poder fascinante dessa obra magnífica.
Kokuho: O Preço da Perfeição estreia nos cinemas brasileiros no dia 5 de março, com distribuição da Sato Company em parceria com a Imovision Filmes.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Sato Company pelo convite à pré-estreia do filme para a produção desta matéria.

