Review: Despelote é a infância latino-americana encapsulada em um jogo

Despelote - Capa

Nos últimos anos, em especial na internet brasileira, uma frase ganhou bastante tração e entrou no léxico popular: “nenhuma experiência é individual”. Eu concordo em parte com ela, mas algo incontestável e que se encaixa perfeitamente, principalmente na realidade brasileira e latino-americana que fui criado, é o contato com o futebol — e Despelote é um jogo que mostra justamente isso.

Seja eu ou você alguém mais apaixonado ou menos pelo esporte, flamenguista ou sem time — é inegável que todos tivemos algum contato com o esporte. Mesmo nestes tempos modernos em que as telas de celular ocupam a atenção das crianças quase 100% do tempo, com certeza elas já experienciaram o “chutar a bola” pelo menos uma vez e mesmo que a bola em questão seja qualquer outro objeto. 

O filtro granulado passa uma sensação bem impactante de memórias para o título (Imagem: Reprodução/Panic)
O filtro granulado passa uma sensação bem impactante de memórias para o título (Imagem: Reprodução/Panic)

Sendo brasileiro, ainda por cima, parece que o principal vetor de orgulho nacional (mesmo que, nos últimos anos, não esteja sendo tão produtivo) é a seleção nacional de futebol. A “canarinho” na Copa do Mundo de quatro em quatro anos une o país. Quem não sabe o nome de nenhum jogador, quem conhece todos ou mesmo quem só sabe o nome do que está constantemente envolvido em polêmicas — o ano de Copa é um evento coletivo, social, e que sempre é marcante. 

Despelote mostra justamente isso: se passando no Equador de 2001 com pequenosflashforwards para cerca de oito anos depois, o jogo semi-autobiográfico mostra os dias do pequeno Julián durante todos os jogos da classificatória para a Copa do Mundo de 2002, em que o país conseguiu pela primeira vez a pontuação necessária para jogar o campeonato mundial. 

Mas o jogo não é sobre a Copa do Mundo ou a seleção do Equador. O jogo é sobre a bola, especificamente. A redonda é presença constante em todo momento dos dias de Júlien, seja na infância compartilhando momentos com seus amigos e tentando acertar garrafas em cima de um muro ou na adolescência em uma festa regada a álcool, fazendo embaixadinhas para entreter os companheiros. 

Independente de conhecer ou não os outros habitantes da cidade, os pequenos fragmentos do dialogo no dia a dia sempre estão ligados a bola. Conforme a possível classificação do Equador para a Copa se aproxima, os habitantes da parte de Quito no qual o título se passa vão ficando mais agitados, futebol torna-se o tema comum das conversas.

As lojas de televisão sempre estão ligadas nos jogos, bandeiras do país hasteadas em homenagem e orgulho pelos guerreiros que estão representando aquele povo no coliseu do belo jogo vão aparecendo e, no dia do derradeiro jogo, as ruas e praças estão vazias. O caminho para casa após a escola é tenso não por perigos, mas sim pela sensação perfeitamente encapsulada em Despelote de uma nação prendendo a respiração na esperança (e ansiedade) de um resultado positivo — não é só “futebol”. Nunca foi. 

O futebol é o fio que une uma nação. (Imagem: Reprodução/Panic)
O futebol é o fio que une uma nação. (Imagem: Reprodução/Panic)

A bola nos países latino-americanos é uma espécie de conexão. É como se ela carregasse, em si, e a cada passe mesmo na brincadeira mais boba ou simples possível, a possibilidade de entreter e também de se aproximar de quem compartilha daquele momento. Meninos, meninas, jovens e idosos — todos entendem o que ela é nesse nosso mundinho latino. Todos já a chutaram uma vez. Todos já conversaram com ela perto pelo menos uma vez. É natural que as memórias queridas nossas, de infância, estejam atreladas de alguma forma a ela mesmo para quem não é tão próximo do futebol.

Por curiosidade, após terminar as duas horas de Despelote, fui conversar com alguns conhecidos de demografias diversas (dos 18 aos 68 anos). Não teve um, independente da idade, que não citou que a memória mais antiga em âmbito coletivo que ele tinha era alguma coisa relacionada a Copa do Mundo. Meu pai, nascido em 1958, comentou feliz e empolgado a experiência de aos doze anos ter vivido a conquista do tricampeonato, enquanto um amigo da faculdade nascido em 2006 me narrou o quanto, aos quatro anos de idade, chorou e teve que ser consolado pelos seus pais por ter visto a eliminação do Brasil na Copa de 2010. 

A experiência de Julián em Despelote é análoga a tudo isso — em sua plenitude, é talvez uma das grandes representações da infância latino-americana mas também do sentimento continental do que significa a bola. Escutar os problemas politicos do país e ver problemas familiares mas, quando a bola entra em campo no campeonato mundial, tudo isso é segundo plano. O que importa é que naquele momento, compartilhamos de um mesmo sentimento. 

A bola presa na árvore aconteceu muito comigo e não duvido que tenha acontecido com você também. (Imagem: Reprodução/Panic)

De certa forma, enquanto jogava Despelote, me senti experienciando uma das grandes crônicas de futebol — tipo de texto que, para o meu eu mais jovem, me fascinou o suficiente para conseguir causar uma aproximação maior com o esporte. Cada momento, cada decisão artística e narrativa no jogo pinga a humanidade que me cativou em escritos de sites como Impedimento (e que deixo o link aqui para uma das minhas favoritas publicadas lá, inclusive). O título equatoriano é uma das melhores representações do que é nascer e ser criado no continente da Copa Libertadores. A infância de Julián, dada as devidas proporções, é a minha também.

Não posso falar que todos vão gostar de Despelote, mas com certeza digo que, de alguma forma, caso seja latino-americano, se identificará com o jogo. Fica a recomendação. 

O Entertainium Brasil agradece a assessoria do jogo por ceder um código de teste para a produção desta matéria.

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