Quando Dragon’s Dogma 2 saiu no agora longínquo ano de 2024 eu fiz uma escolha consciente de não engajar com o jogo. Lutando contra o que é popularmente conhecido como FOMO — a intensa sensação/vontade de engajar com algo ao mesmo tempo que outras pessoas estão comentando — me aterrei na lembrança de que o primeiro título da franquia, mais de uma década atrás, saiu em uma versão com menos conteúdo e quando sua expansão, Dark Arisen, foi lançada, a recepção e sua qualidade melhoraram muito. Me segurei e, agora, posso afirmar que valeu muito a pena.
Vamos para as formalidades de cara: Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen é uma versão melhorada e com muito mais conteúdo do jogo lançado em 2024. Para quem joga nas plataformas na qual ele foi lançado originalmente, a atualização é constituída de uma update gratuita para o título e um pacote de expansão disponibilizado nas lojas virtuais; para quem, assim como eu, joga no Nintendo Switch 2, todas as versões disponíveis do título já contam com todo o conteúdo novo — seja a atualização ou a expansão.
Para o marinheiro de primeira viagem que sou em Dragon’s Dogma 2, as melhorias a primeira vista me pareceram muito bem integradas ao ponto de, para escrever esta análise, tive que procurar uma lista delas — e fiquei bem surpreso ao descobrir que uma delas, que engloba a utilização dos itens de Fast Travel, ocorre bem no começo do jogo e não pareceu algo modificado demais nesta nova versão. A integração da expansão também é interessante, com seu conteúdo sendo iniciado como se fosse uma Quest normal em uma taverna na cidade principal do jogo.

O que é interessante, puxando em cima justamente da questão da integração dessas mudanças com a experiência normal do jogo, é como elas parecem pintar toda uma experiência muito semelhante ao do título original, até mesmo no sentido de reavaliação dos jogos com seus novos conteúdos — mas que é algo que se conversa até mesmo com o lançamento original e uma abordagem que a equipe criativa por trás do original e da sequência comentou em várias entrevistas já: o segundo título da franquia é toda a visão original do primeiro 100% totalizada e executada.
Esse clichêzão de “o novo título é o que gostaríamos de fazer no primeiro jogo mas só conseguimos agora” é extremamente recorrente na indústria dos videogames. Hideo Kojima, Shigeru Miyamoto e tantos outros já falaram algo do tipo em momentos diversos de suas carreiras, e eu não duvido que muitas vezes seja sim um sentimento real e propagado por questões técnicas.
Porém, especificamente no caso do jogo da Capcom ele me parece ganhar um peso um pouco maior já que, de certa forma, Dragon’s Dogma tem um quê metagamistico desde sua primeira versão com o multijogador assíncrono representado pelos peões de seus amigos que podem ser invocados e também com a própria experiência de fim de jogo que sempre foi um exercício social também.

As interações com o mundo, os combates, as opções de classe, as relações com os NPCs e a história são fios que cativam bastante o jogador, mas em especial sinto que como alguém que amou a experiência que teve com o primeiro título anos atrás o que mais me chamou atenção foi realmente ver uma equipe de desenvolvedores retraçando seus próprios passos e pensando “podemos melhorar” se aproveitando de hardwares e infraestruturas que não existiam anteriormente — a marcha do desenvolvimento está presente em todos os pontos do título.
No Nintendo Switch 2 isso toma tons um tanto agridoces, na falta de termo melhor. O jogo roda com maestria no modo portátil, que foi a forma que mais joguei, mas isso só é possível por conta do sistema de geração de frames por IA que a plataforma tem em seu arcabouço de funções. Isso, em vários momentos, resulta em animações ou transações estranhas, pouco naturais e que o olho minimamente acostumado com a fluidez de quadros reais percebe. Será que a minha experiência está sendo a legitima que esses desenvolvedores tanto tentaram criar e reimaginar em relação ao primeiro título?
Acho que é sim. Eles poderiam só não ter colado a função caso contrário, mas isso ainda me levanta mais questões sobre a indústria como um todo — mas não pertinentes ao título ou a esta análise. O que faz sentido comentar aqui e que é provavelmente o motivo de você estar lendo é que sim, Dragon’s Dogma 2 é um título incrível e sua versão melhorada, dois anos depois, é um dos melhores RPGs da geração atual.
Talvez o jogo seja um pouco hostil demais em sua apresentação e explicação, mas assim como aconteceu dez anos atrás, poucos títulos me fizeram, ao chegar nos créditos, largar o controle e pensar “putz, eu acho que não vou esquecer disso aqui não”. Se você acredita ter um gosto parecido com o meu, Dragon’s Dogma 2 será um prato cheio com toda certeza.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Capcom pelo código da versão para Switch 2 do jogo para a produção deste review.
