Review: Replaced surpreende muito com sua história cyberpunk frenética, mas decepciona em ritmo e execução de desafios

Replaced

O novo Sad Cat Studios chegou com seu primeiro – e tão aguardado – título recentemente: Replaced. O estúdio belarusso surpreendeu com um incrível side scrolling (câmera lateral) de ação com puzzles e gráficos em pixel art, apesar de ter alguns bugs nos primeiros dias do lançamento. Mas há consistência em gráficos tão lindos e uma jogabilidade meio truncada? Vem ler e descobrir na nossa análise.

Em Replaced, você assume o papel de Reach (ou o Dr. Warren Marsh, que teve a consciência literalmente substituída pela inteligência artificial que ele mesmo criou, a R.E.A.C.H.) e tenta sobreviver à catástrofe criada em sua própria mega corporação. Fugindo da polícia de Phoenix City, Reach passa por dificuldades extremas no ambiente inóspito dos seus arredores e resiste aos Cupins, grupo de marginais à sociedade que sobrevivem de formas viscerais: com base na escravidão e na pilhagem, por exemplo.

Pois é, logo os elementos cyberpunk se apresentam de forma brutal. Mas, mesmo existindo uma baita história e uma energia explosiva no jogo, as coisas ficam muito mais interessantes lá pelos capítulos 4 e 5, ou seja, a partir da sua metade.

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Sem dúvida, Replaced tem uma das pixel arts mais incríveis já vistas!

Sob uma trilha sonora fenomenal, repleta de melodias com músicas eletrônicas sombrias, distorcidas por sintetizadores, teclados e instrumentos de corda modernos, essa “vibe” cyberpunk só melhora: Reach avança e, após encontrar uma enorme comunidade de Descartes (indivíduos paupérrimos, também jogados à margem da sociedade) vivendo em ruínas de prédios, hospitais e metrôs totalmente abandonados e longe dos muros daquele centro opressor, rígido e artificial da cidade de Phoenix.

É nessa comunidade que Reach, mais supostamente racional, curioso e, inicialmente, frio, vai encontrar alento e fazer conexões humanas importantes para sua vida. E, comovido e apegado às pessoas que conheceu (tanto líderes quanto trabalhadores comuns), vai ajudar a superar seus maiores desafios e medos, desde ajudar um idoso a descobrir o que aconteceu com sua família até enfrentar as poderosas mega corporações paramilitares de Phoenix. Isso tudo o leva para lutas e fugas alucinantes, diretamente na base dos inimigos e nos biomas mais perigosos e distópicos.

Mas, então, como se dá a jogabilidade de um jogo tão narrativo assim? O momento a momento de Replaced é muito bem definido: a apresentação de situações através de andanças e cenas narrativas, em períodos de profundidade e segurança; a ação com combate metódico e cadenciado, com mecânicas de desvio, porrada, aparada, tiro e dano em área (todos inseridos muito gradual e amigavelmente) e; os momentos de quebra-cabeça envolvendo desafios de plataforma.

Também há momentos em que é preciso solucionar puzzles rápidos de encaixe de imagens para hackear dispositivos tecnológicos e usar o ambiente a seu favor, para além de melhorar sua arma (que é uma pistola que se transforma em cacetete e vice-versa, super estilosa) ao máximo. Todos os cenários e capítulos contêm itens de melhoria de energia de recarga da sua arma, mais vida e mais itens de cura, além de objetos colecionáveis de diferentes naturezas, que inserem muito mais lore desse estranho mundo distópico de uns EUA quase totalmente destruído por uma guerra nuclear nos anos 1980.

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Não espere amizade fora da comunidade de Descartes. Todo mundo é seu inimigo nos EUA pós-apocalíptico.

Embora Replaced seja muito estiloso – com uma arte de pixels 2.5D do cenário e dos personagens absurda de linda, trilha sonora excelente e um movimento de câmera contextualizado muito bom -, ele tem, sim, lá seus muitos problemas.

Primeiro, o jogo é lento demais! Cada cinemática e transição para diálogos têm uma decisão artística extremamente contemplativa, de forma exagerada, a ponto de não se saber quando se está jogando ou simplesmente assistindo em vários momentos. Não é um grande problema, mas o jogo não é totalmente narrativo, assumidamente, em sua essência e desde o começo. Em outras palavras, suas outras características não chegam a combinar muito com seu tom mais narrativo e devagar, embora seja compreensível a intenção artística. 

Segundo, controles não responsivos e os desafios de plataforma têm um desafio desmedido por um problema simples: a posição de cada borda e elemento visual nunca são muito claros, dificultando a leitura do próximo passo a ser dado no cenário, mesmo com a famigerada tinta amarela sendo usada em excesso. Isso torna tudo muito maçante e ainda mais tedioso pelo vai-e-vem das falhas e checkpoints um pouco distantes. O combate também parece não funcionar bem, de acordo com o que se espera, mesmo com tantos recursos para enfrentar os inimigos e chefes mais poderosos. Sua imposição de dificuldade é só a adição de mais inimigos no cenário, limitando-se a fazer você superar os múltiplos ataques deles – muitas vezes, realizados ao mesmo tempo!

Talvez, o mais adequado é chegar com as expectativas ajustadas, porque sua lentidão será uma variável para a formação de opinião. Lentidão essa que se dá em todos os desafios citados, o que o torna até mesmo entediante em muitas e muitas partes, com a única exceção do combate, que vai se atenuando com o avançar dos capítulos. Checkpoints meio distantes do ponto em que você morre corroboram para o progresso maçante que ele impõe à pessoa jogadora.

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Phoenix City dá um espetáculo visual a quem consegue ultrapassar sua muralha (e muitos desafios de plataforma e policiais hostis de brinde).

Muitos desses problemas foram e estão sendo corrigidos aos poucos pela equipe do Sad Cat, uma vez que já conseguiram sanar problemas de progresso na história desde o dia 1 do jogo. Também é notável a falta que faz ao jogo o Voice Acting, ou, ao menos, algumas vozes/murmúrios que expressem os sentimentos dos personagens bem construídos dessa trama, sendo que a pixel art não é exatamente a melhor forma de trazê-los à tona com mais profundidade.

Mesmo que contenha vários problemas e que não seja perfeito (e qual jogo é, não é mesmo?), Replaced consegue divertir muito com uma história cyberpunk poderosíssima, com uma mensagem intrínseca incrível e uma atmosfera muito única, sendo apresentado de forma muito estilosa. Por ora, talvez seja a melhor direção de arte do ano! Sem contar seus visuais lindíssimos que mesclam o 3D com o 2D e que enchem os olhos, do início ao final.

Sua história é muito criativa, mas prejudicada pelo ritmo da jogabilidade. Também tem alguns absurdos, principalmente nas partes de ação, algo bem característico de obras do leste europeu (e convenhamos, é um videogame, né? Não precisa estar calcado na realidade). Mas, no fundo, Replaced quer te pegar pela mão e conduzir para seu mundinho próprio, te fazendo lutar pelos oprimidos e derrubar os maiores impérios com a maior força da alma de Reach (ou de Warren). Quer provocar a lembrança de que a IA e o autoritarismo talvez não sejam o melhor caminho que a humanidade pode tomar em momentos tão difíceis.

O Entertainium Brasil agradece a assessoria do jogo por ceder um código de teste da versão PC para a produção desta matéria.

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