Review: Virtue and a Sledgehammer vai te levar a uma jornada muito emotiva e filosófica a marretadas!

Virtue and a Sledgehammer - capa

É difícil não sermos bombardeados por conteúdos e porcarias geradas por IA ao navegarmos na internet hoje, né? Não sei quanto a vocês, mas é tudo uma pasta amorfa, padronizada e muito abominável, no geral, não? É sobre isso, à sua própria forma e em grande parte, que Virtue and a Sledgehammer comenta, tendo uma das narrativas mais profundas e tocantes já vistas e uma jogabilidade elegantemente simplificada. Venha descobrir mais a respeito do jogo e nossa opinião!

Quebra tudo!

Se você espera uma narrativa que te impacte de forma absurda, como um tiro de canhão no peito, o novo título da Deconstructeam é a escolha mais acertada. Seus primeiros trailers de anúncio passam uma vibe de muita curiosidade, escondendo o ouro muito bem, como em muitos outros jogos da Devolver. E no fim das contas, bastaram quase 5 horinhas de jogatina para nos depararmos com uma das melhores narrativas dos videogames já feitas.

Em Virtue and a Sledgehammer você assume o papel de Pratelle, uma jovem repleta de dor e raiva, carregando uma enorme marreta e buscando acabar com todo o seu sofrimento na base da porrada mesmo, esmagando tudo que estiver em seu caminho. Ela é filha adotiva, irmã de Nina, uma inteligente e bela cientista que nos revela sua frieza muito cedo, enquanto conhecemos seus traços humanos também ao longo do jogo. Ambas têm muitos percalços e prazeres em suas memórias juntas, muitos momentos singulares que são contados aos poucos, conforme Pratelle avança e quebra silhuetas de vidro desses mesmos momentos.

Quebrar? Sim, Pratelle põe pra fora todo o ódio que sente quebrando TUDO com sua marreta, desde o primeiro segundo de jogabilidade. É preciso desmanchar paredes, quebrar as memórias escondidas e enfrentar robôs hostis e/ou pacíficos (se assim você quiser) que habitam sua cidade natal. 

Virtue and a Sledgehammer: destruindo tudo e todos com sua marreta, sem dó
Não importa quem ou o quê esteja na frente de Pratella, ela pode – e talvez deva – destruir tudo a marretadas.

Cidade natal essa que é um pequeno vilarejo espanhol, hoje completamente habitado por robôs – e isso soa estranho -, suscitando sentimentos de estranheza ao não ser bem-vinda e, de certa forma, por eles saberem o que ela veio fazer, de volta após muito tempo.

Virtue and a Sledgehammer pode evocar sentimentos muito maniqueistas nesse sentido de retorno à sua primeira casa, de como a sua vizinhança e seus supostos amigos realmente a viam e quais as verdadeiras memórias daquele lugar. De forma desavergonhada, comenta muito sobre racismo e homofobia – e como Pratelle lida com isso -, dada sua aparência e a orientação sexual diferentes do que a heteronormatividade impõe à sociedade, do jeitinho inconsciente que conhecemos hoje em dia.

Os robôs não passam tão despercebidos e sem agência assim: a maioria tem diálogos entre si, ativados ao nos aproximarmos, e dizem frases distintas ao estarem próximos ou prestes a bater em Pratelle. Há alguns, inclusive, que dialogam como se a conhecessem mais intimamente e fazem suas próprias confissões. Isso serve de costura para a narrativa e acerta em cheio em satisfação e até no humor, sempre com os dois pés em questões atualíssimas e éticas.

É fácil, logo, se sentir simpatizado(a) pelas dores de Pratelle e dar razão a todos os seus feitos no andar da narrativa, entendendo cada vez mais sobre aquele mundinho e toda a relação humano-máquina estabelecida. Mais ainda ao descobrirmos o pecado capital de sua irmã aos poucos.

Muito do que é apresentado é a simples aceitação da imperfeição da humanidade. Por que relutamos tanto ao não sabermos lidar com isso nos nossos dias de vida?

A mecânica principal de marretar tudo é meio travada no início, mas tem sua cadência que funciona para o que está propondo. Mesmo que repetitiva, ela é pausada frequentemente por flashbacks de diálogos da protagonista com a família e entra em harmonia rapidamente com a narrativa, tornando-se dinâmica e fresca nas medidas certas. A variedade de robôs e cenários quebráveis é bem limitada, mas é importante reforçar que a narrativa carrega o jogo inteiro, na prática, e sua duração é curta.

O conjunto da obra destruição

Também é raro passarmos por momentos do jogo em que não queiramos transformá-lo num belo quadro emoldurado em posição de destaque da nossa casa. Ele é absolutamente lindo e sua estética chama a atenção de uma maneira única, mostrando o poder máximo do Design e da Direção de Arte. Virtue and a Sledgehammer tem seus cenários e personagens todos num Low Poly muito bem feito, iluminações cirurgicamente posicionadas e cores contrastantes o tempo inteiro, brincando muito com o vermelho, principalmente.

Em Virtue and a Sledgehammer, você é jogado(a) em dilemas éticos e filosóficos a todo momento, sendo provocado a pensar e pensar… Só que são pensamentos com cargas cavalares de sentimentos, além de estar pontualmente localizado para nossos tempos atuais (e para o nosso português brasilieiro, aproveitando a deixa), o que até me passou uma sensação de experimentar algo extremamente profundo e que não vejo desde The Last of Us, por exemplo. O resto é história e as lágrimas foram inevitáveis nos momentos finais.

Virtue and a Sledgehammer é visceral! Uma das obras mais humanas com que já tivemos contato. Como a carne, os sentimentos e a alma se relacionam com o ambiente, como nos inter-relacionamos enquanto humanos e como criamos memórias juntos são assuntos centrais e indissociáveis dele. A provocação, portanto, é estar a todo momento nos lembrando o peso de cada decisão e fala, sejam elas mais frias ou mais acalentadoras, e quais os seus impactos na vida de outrem.

Sua trilha sonora ainda não foi lançada (mal vejo a hora de poder ouví-la por completo!), possuindo apenas uma demonstração do artista fingerspit, a qual carrega um tom muito único e diz muito respeito às mensagens que quer transmitir com muita presença, definindo uma atmosfera incrível.

São sintetizadores usados e abusados, distorções “no talo”, batidas ritmadas que lembram hip hop e corais presentes em momentos críticos. A trilha é facilmente um dos pontos altos de Virtue and a Sledgehammer. É fenomenal a ponto de arrepiar!

Virtue and a Sledgehammer: Pratelle questionando a validade da IA e pedindo para desconsiderá-la como humana.
A essência de Virtue and a Sledgehammer é uma narrativa belíssima, cheia de significado e humanidade, capaz de te tirar muitas lágrimas no final.

Virtue and a Sledgehammer é extremamente necessário e contemporâneo, super tocante e impactante para os nossos tempos inundados por porcarias geradas por IA internet afora, além de comentar com muita filosofia. Faz refletir o tempo todo sobre nossa relação com a máquina e qual o verdadeiro significado da vida.

Vale mesmo a pena a gente trocar tudo por máquinas frias sem sentimentos, sem sensibilidade, sem a capacidade de pensar e criar coisas novas? Até que ponto a digitalização (tema que impacta diretamente os videogames de hoje, inclusive, e que ganha recorrência) é válida numa sociedade como a nossa? Aqui você joga com uma personagem fortíssima e decide por si mesmo(a) ao mesmo tempo que dialoga com suas questões familiares quintessenciais, pincelando uma jornada extremamente emotiva e crítica. Super recomendado!

O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Devolver Digital pelo código da versão de PC do jogo para a produção deste review.

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