Review: Marathon é desconfortável e genial na medida certa

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Qualquer indústria cultural passa por momentos em que algum tipo de conteúdo especifico torna-se a norma por um período de tempo. Se formos pensar nos últimos dez anos nos videogames, tivemos os Hero Shooters encabeçados por Overwatch e os AAA cinematográficos que resultaram diretamente do sucesso de The Last of Us. Ao mesmo tempo, também é possível observar tipos que começam a ganhar tração e pouco a pouco parecem começar a cravar espaço no zeitsgeits — com um dos mais recentes sendo os Extraction Shooters.

(Imagem: Reprodução/Bungie)

Evidenciando como a indústria está cada vez mais se esforçando para cravar esse tipo de jogo como uma tendência tivemos, nos últimos seis meses, dois exemplos extremamente bons: Arc Raiders e, agora, Marathon. Esse último, lançado agora em março, é uma reimaginação de uma série de jogos da Bungie (a desenvolvedora de Halo e Destiny) que chega para ser o jogo da próxima década da empresa, assim como Destiny foi. A questão aqui é que, independente de sua qualidade, ele é bem mais “agressivo” para o público na forma que se apresenta e mostra as campanhas — o que, a depender, pode ser um problema.

O mais importante de ser cravado aqui é que Marathon é um título muito diferente de Arc Raiders, mesmo que se encaixe no mesmo “gênero”, na falta de palavra melhor. Enquanto o queridinho atual é um jogo em que a liberdade do jogador em definir como engajar com os outros jogadores é muito maior, a nova cria da Bungie é muito mais focada nas brigas entre os jogadores. Existe uma atmosfera constante no jogo que de forma quase subconsciente incentiva a agressividade, e isso torna cada partida um desafio muito mais opressivo e repleto de ansiedade do que as de seu “rival”.

Essa atmosfera agressiva, presumo, é intencional para combinar com a temática do jogo. Marathon se passa em um universo pós-apocalíptico e cyberpunkiano muito além do que a sensibilidade atual dos videogames está acostumada a ver. As quests, a procura por loot, a história e o pano de fundo do mundo são todos apresentados em um viés extremamente utilitário e pesado, representado com maestria até mesmo pela caracterização dos Runners — os personagens que controlamos.

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(Imagem: Reprodução/Bungie)

São sete Runner Shells, e o fato deles terem esse “shell” no nome já deixa claro onde quero chegar. Em termos de jogabilidade, cada uma dessas opções contam com opções de habilidades e tipos de armas que podem se adaptar para cada estilo de jogo que o jogador preferir, mas em termos de história eles são somente construtos massificamos utilizados pelo jogador para alcançar seus objetivos.

Descartáveis, a morte deles em uma partida não significa nada além da perca dos recursos recolhidos no mapa naquela tentativa — o único pensamento que passa é que “talvez eu tivesse me dado melhor se estivesse usado outra shell”, nunca uma empatia real com a perda daquela rodada ou do personagem. Esse utilitarismo é constante em todas as interações do jogo. As grandes empresas que assinamos contratos para poder receber quests tem intenções claras e, mesmo que soltem bordões de que “nós cuidaremos de você”, é perceptível que somos somente um número.

Toda a estética do jogo também coopera para esse choque, já que mesmo com cores extremamente vivas (e visuais absurdamente lindos, diga-se de passagem) o que realmente temos no jogo ao ver o corpo de um Runner pingando o liquido azul pelo mapa é um desconforto grotesco e que logo é esquecido pela existência de mais itens para ser coletados antes da extração. Se Cyberpunk 2077 trouxe de volta ao grande público a estética mais clássica do mundo tecnocrata, Marathon carrega em cada menu, mapa e interação uma extrapolação brutalista dessa visão — é algo que, sinceramente, me prendeu e me fez apaixonar muito pelo jogo.

Ao mesmo tempo, isso também se traduz em uma jogabilidade pesada e com uma curva bem complexa de aprendizado. Mesmo com os tutorias, me via confuso e sem saber reagir a agressividade tanto de outros jogadores quanto dos inimigos computadorizados que habitam as diversas superfícies do planeta Tau Ceti IV.

Frustrante por vezes mas ao mesmo tempo suficientemente engajante, muito pelo controle extremamente satisfatório do jogo e o (já há décadas) genial e extremamente efetivo gunplay característico da Bungie, Marathon prende, mesmo que na minha experiência eu esteja tendo dificuldades de encontrar partidas muito possivelmente por estar na América do Sul — uma rápida busca na internet indica que, nesse momento inicial, o jogo está passando pelo mesmo problema que ambos os Destiny passam no nosso continente e na Oceania, em que a forma que o matchmaking é feito acaba prejudicando jogadores nesses continentes. Torço para que dessa vez a Bungie corrija o problema.

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Sinceramente, só de olhar essa imagem muito do que falei no texto já fica claro. (Imagem: Reprodução/Bungie)

Além disso, curiosamente, as marcas de outro gênero que reina na indústria atualmente se mostram presente, mesmo que de maneira um pouco mais interessante: o jogo como serviço. É claro que Marathon terá mais conteúdo com o passar do tempo, mas o próximo momento dele, o de liberar seu quarto mapa, torna isso mais engajante: um enorme e complexo ARG (Alternate Reality Game, aquelas atividades extra-jogo na vida real que contam com inúmeros objetivos para serem alcançados pela comunidade que liberam benefícios internos) que, ao termino da confecção deste texto, estava no meio de seu quarto passo de sete. Acompanhar discussões e comentários de jogadores enquanto tentam vencer os desafios impostos tem sido uma experiência interessante e engajante.

Marathon, com tudo isso, se consolida como um título extremamente viciante e desconfortável. Desafiador e esteticamente forte, frustrante e fascinante na mesma media, o novo jogo da Bungie é até o momento um dos meus destaques pessoais de 2026. O quanto ele conseguirá manter seu momento ao longo do tempo é uma pergunta importante e que, sinceramente, estou muito curioso para ver a resposta.

O Entertainium Brasil agradece a assessoria do jogo por ceder um código de teste para a produção deste review. 

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