Review: The Blood of Dawnwalker é um dos melhores jogos de mundo aberto dos últimos tempos

the blood of dawnwalker

Acho que sou bem atípico com relação à minha experiência prévia com jogos similares a The Blood of Dawnwalker ao começar a jogá-lo. Eu tenho certa familiaridade com a franquia The Witcher, que foi de onde boa parte da equipe da desenvolvedora, a Rebel Wolves, veio. No entanto, apesar de ter jogado uma parte do primeiro  The Witcher e só um tantinho de The Witcher 2: Assassin of Kings, não cheguei nem a tocar em The Witcher 3: Wild Hunt, que é, de longe, o volume mais popular e conhecido da trilogia. Ele está juntando pó na minha pilha de jogos há anos, mesmo depois de finalmente ter zerado o último grande lançamento da CD Projekt Red, Cyberpunk 2077, este ano, com mais de 150 horas no total. The Witcher 3 é, com certeza, a maior inspiração para The Blood of Dawnwalker, tanto em construção de mundo quanto no tom. Mas, em termos de execução, é um negócio completamente diferente e, de uma maneira só sua, incrivelmente divertido.

O ano é 1349 e estamos em algum lugar dos Cárpatos. A Peste Negra está varrendo a Europa com milhões de mortos, exceto no Vale Sangora. Aqui, um vampiro ancião, conhecido como vrakhiri no jogo, Brencis, junto de seus asseclas, tomou o controle e executou seu antigo líder. O sangue de vampiro contém propriedades poderosas de cura e é capaz de proteger quem o consumir da Peste. Brencis o oferece a todos os cidadãos em troca de uma suposta taxa de sangue, onde todos os adultos são obrigados a “doar” uma parcela de sua vitalidade para saciar a sede vampirística. Qualquer um que for fraco demais morre, com todo seu fluído sendo consumido. Naturalmente, o povo não fica muito feliz com a troca, e um grupo de rebeldes chamados de Manumits acaba se formando.

Seu papel é o de Coen, um jovem de uma vila e ex-mineiro que testemunha a destruição de seu lar por Brencis, que por seu azar raptou sua mãe e irmãos, planejando matá-los em 30 dias, como parte da coroação do malvadão. E, para piorar ainda mais a situação, o líder vampiro rogou uma praga sobre Coen, transformando-o em um sugador de sangue, para usar a necessidade de se alimentar com base em outros humanos como uma forma de punição por ter sido enfrentado. Mas algo deu errado e Coen se torna um Dawnwalker, humano durante o dia e vampiro à noite. Armado com suas novas habilidades sobrenaturais e algumas outras que ele vai aprendendo conforme o jogo progride, Coen se vê obrigado a mergulhar de cabeça em uma aventura para não só salvar sua família, mas também, com sorte, liberar o Vale Sangora antes que o tempo acabe.

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O Vale Sangora é um lugar lindo e maravilhoso em meio ao Cárpato.

Coen é um ótimo protagonista; simpático e boa pinta, movido pela sua honra e amor para com sua família, mas que gradualmente é corrompido por sua maldição. Há outros personagens muito bons também, como Anca, a herbalista e bruxa, com quem Coen pode até se apaixonar, Crake, o líder dos Manumits, e o meu favorito, o Padre Florin, que prega uma versão bem diferente do Cristianismo, de acordo com as vontades de Brencis. Essa adaptação pregada por Florin coloca os vampiros como seres elevados, no mesmo patamar que santos, e é maravilhosamente profano, desenvolvida de maneira sublime em missões secundárias, mostrando de maneira clara o domínio da religião durante aquela época, na Europa do século XIV.

O limite de tempo é provavelmente a mecânica mais importante com relação à interação entre história e jogabilidade. Ele não se move em tempo real, ao invés disso, dias e noites são divididos em oito partes distintas. Quando você estiver percorrendo o mundo, lutando contra inimigos, cuidando de seu inventário, comprando coisas de vendedores ou utilizando a viagem rápida, o tempo não é gasto. Ele só se move quando você toma decisões importantes, como completar ou não uma missão que avança com a história, ou realiza ações que têm algum tipo de impacto sobre o mundo ao seu redor. Da mesma maneira, apesar de receber pontos de XP por matar inimigos ou terminar atividades, ao gastá-los, o tempo também se move. Objetivos mais importantes tendem a sugar mais do que outros de menor impacto.

Por causa desse limite, pode parecer mais sábio correr que nem um louco para completar a missão principal, mas essa não é uma maneira muito legal de se jogar The Blood of Dawnwalker. Isso porque não existe exatamente uma “missão principal”. Há objetivos que tendem a ser mais centrais à narrativa, mas até atividades secundárias podem vir a ser conectadas e eventualmente terem um impacto no mundo em geral. Brencis é apoiado por três líderes vampiros da região: Ambrus, Xanthe e Bakir, e para enfraquecer seu controle sobre esses locais é preciso concluir tarefas mais básicas como liberar campos de prisioneiros e atacar guarnições. Do tipo de coisa que lembra muito os jogos da Ubisoft, como Far Cry 5, em termos estruturais. Apesar disso, The Blood of Dawnwalker se diferencia um pouco pelo fato dessas ações serem um pouco mais interessantes, com personagens para se conversar ou informações a mais sobre o mundo esperando para serem descobertas. Tudo faz com que você sinta que está progredindo, mesmo com algumas dessas tarefas não parecendo muito críticas no contexto da história.

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Há muitos personagens diferentes para trocar ideia no jogo, todos com atuações muito boas de atores britânicos.

Em termos de combate, suas armas principais são a espada durante o dia e as garras de vampiro quando o sol se põe. As duas funcionam de modo parecido, apesar das garras serem mais ágeis e rápidas do que a espada. Dá para usar sua lâmina durante a noite se quiser, mas elas não são tão poderosas quanto de dia. O sistema de luta funciona bem no teclado, com a direção de ataques inimigos sendo indicada através de pontos cardeais. É possível bloquear a qualquer momento, mas isso gasta sua resistência, por isso é importante aprender a realizar bloqueios perfeitos, porque assim não há perda qualquer. Atacar funciona igual, é preciso variar seus golpes, senão o inimigo será capaz de desviar e revidar. Há também habilidades especiais que podem ser destravadas, tanto de espadas quanto de vampiro, junto de bruxaria, o terceiro ramo de sua árvore de poderes.

A dicotomia entre ser vampiro e humano é desenvolvida maravilhosamente no jogo. Enquanto o sol está no céu, você vai poder falar com muito mais personagens, agindo como um verdadeiro símbolo da moral, simpático com todos, matando lobos e derrotando soldados para completar objetivos de missão. De noite, o caldo entorna, porque é preciso sugar sangue como única maneira de recuperar vida, mas como compensação, seu boneco torná-se muito mais ligeiro, com habilidades de teletransporte e de escalar construções, além da forte mordida para tirar sangue de animais e pessoas pouco cuidadosas. Acabei encontrando um jeito bom de recuperar pontos de vida, correndo por entre as árvores e lanchando em cervos e pobres patinhos. Quando estiver se alimentando em outros humanos, é possível escolher entre pegar só o necessário, o que os nocauteia, ou deixá-los secos, matando suas vítimas no processo. Tudo depende da sua vontade (e pressa) de destravar mais habilidades de vampiro, já que gastam cada vez mais recursos conforme a corrupção de Coen avança.

Se você não tomar conta da sua sede de sangue durante a noite, é possível que durante conversas com outros humanos, você seja obrigado a atacá-los para saciar sua fome, o que pode levar a um final repentino de uma missão. Por sorte, durante o dia, Coen consegue se controlar mais, mas, por consequência, perde o acesso às suas habilidades especiais que facilitam o combate e o percorrer no mundo do jogo. Seu inventário tende a ficar lotado bem rapidamente, alguns só podendo ser utilizados em períodos específicos, o que não é facilitado pelos controles da versão PC, que até o momento tendem a tirar ítens de equipamento sem querer – então é melhor navegar por ele com o teclado até que uma correção seja publicada pelos desenvolvedores.

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Svartrau é uma metrópole movimentada durante o dia, mas de noite vira o parquinho der diversão dos vampiros.

Visualmente, o Vale Sangora é lindo e mesmo na minha placa de vídeo antigona, uma Nvidia 2070 Super, o jogo roda super bem na configuração média, com DLSS ativado. A taxa de quadros sofre um pouquinho em áreas mais habitadas, especialmente na capital, Svartrau, pelo fato de haver muita gente em tela ao mesmo tempo. É um mundo imenso, mas mesmo assim não chega a ser intimidante, havendo uma variedade de biomas, como pântanos, montanhas e florestas, que contribuem na imersão. Você usa santuários marcados no mapa para atualizar ou comprar novos poderes e também para a viagem rápida, onde, devido às limitações de tempo, tem que decidir o quanto irá gastar e potencialmente trocar de dia para a noite, ou vice-versa.

The Blood of Dawnwalker é especial devido ao jeito que trata o que poderia ser só encheção de linguiça típica de jogos de mundo aberto, com uma progressão de narrativa mais cuidadosa e com peso, algo que eu pessoalmente nunca havia visto. A quantidade de missões únicas e não repetidas, personagens e localidades cuidadosamente elaborados que você encontra é de cair o queixo, sem falar da variedade de inimigos, que incluem monstros lendários. Amei o contexto histórico do jogo, a Europa medieval, onde elementos do folclore são aceitos como fatos concretos, no lugar do mundo fictício de The Witcher. O limite de tempo, por incrível que pareça, para mim, acabou melhorando minha experiência de jogo, fazendo com que tudo parecesse mais urgente e realista, mesmo dentro do âmbito fantasioso da história. Estou ansioso para ver onde as aventuras de andarilho vampiro do Coen irão dar.     

Review originalmente produzido para o Entertainium. Clique aqui para conferir a versão original.

Texto traduzido e adaptado por Eduardo Rebouças.

O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Bandai Namco no Brasil pelo acesso à versão PC do jogo para a produção deste review.

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