Poucos jogos conseguiram transformar música em estratégia de maneira tão peculiar quanto Patapon, clássico do PSP que marcou época ao colocar o jogador no comando de um exército por meio de batidas ritmadas.
Ratatan recupera essa fórmula com uma nova identidade visual, personagens carismáticos e uma estrutura inspirada em roguelikes como Hades. O resultado é uma aventura que entende muito bem o apelo de seu “antecessor”, mesmo quando algumas das novidades não funcionam tão bem quanto deveriam.
Desenvolvido por integrantes da equipe responsável por Patapon, o jogo nos coloca no controle dos Ratatans, criaturas que lideram tropas de Cobuns em uma jornada para encontrar a Deusa. A missão envolve atravessar cenários, enfrentar hordas de inimigos e derrotar chefes, sempre combinando comandos no ritmo da música.
A estrutura de combate é familiar para quem conhece Patapon. Em vez de controlar individualmente cada soldado, o jogador executa sequências de botões para ordenar ataques, defesas, movimentações e outras ações. Acertar o tempo das entradas melhora a execução dos comandos, enquanto perder o ritmo pode deixar o exército vulnerável.

A diferença é que Ratatan permite controlar diretamente o personagem principal durante as batalhas. É necessário movimentá-lo pelo cenário, pular para escapar de ataques e continuar emitindo comandos para as tropas. Isso acrescenta uma camada de atenção que torna os confrontos mais dinâmicos, mas também pode deixá-los caóticos.
O jogador precisa observar os inimigos, acompanhar a música, escolher as ordens corretas e cuidar do próprio personagem. Quando tudo funciona, a combinação é excelente: os Cobuns respondem às batidas, os ataques acompanham a trilha sonora e a batalha ganha uma cadência própria.
O sistema também é mais acessível do que parece inicialmente. As sequências de comandos são relativamente simples, mas a dificuldade aumenta conforme os inimigos apresentam novos padrões e exigem respostas específicas.
A maior novidade em relação a Patapon está na estrutura roguelike. Cada tentativa apresenta uma sequência de confrontos e escolhas de caminhos, com recompensas que ajudam a definir a estratégia daquela partida.
Ao vencer batalhas, o jogador pode selecionar Ratakaruta, cartas que concedem melhorias aos ataques, habilidades passivas e efeitos elementais. Combinar cartas do mesmo elemento pode desbloquear efeitos adicionais, como veneno, eletricidade ou congelamento.

Essa variedade incentiva a experimentação. Uma combinação pode favorecer ataques agressivos, enquanto outra oferece mais proteção ou depende de efeitos de estado para causar dano. As possibilidades são ampliadas pelos oito Ratatans jogáveis, cada um com características próprias, além das diferentes armas e classes de Cobuns disponíveis.
O problema é que as escolhas nem sempre parecem tão importantes quanto deveriam. A oferta frequente de cartas e lojas facilita a obtenção de melhorias, diminuindo o peso de algumas decisões durante as partidas. Também faltam explicações mais claras sobre determinados efeitos, o que pode obrigar o jogador a consultar os menus de ajuda para entender como suas habilidades realmente funcionam.
Entre uma tentativa e outra, retornamos para Rataport, o centro de operações da aventura. Ali é possível desbloquear melhorias permanentes, fabricar armas e aumentar atributos, como o tamanho inicial do exército e a disponibilidade de recursos de cura.
Essa progressão é importante porque perder uma partida não significa voltar exatamente ao ponto de partida. Mesmo uma tentativa fracassada pode render recursos para tornar a próxima jornada mais fácil.
Por outro lado, o sistema apresenta problemas de balanceamento. Alguns chefes podem parecer praticamente impossíveis até que o jogador acumule melhorias suficientes. Depois desse investimento, o desafio pode despencar de maneira abrupta, transformando um obstáculo aparentemente intransponível em um confronto relativamente simples.

A sensação de evolução é satisfatória, mas seria melhor se a dificuldade dependesse mais do domínio das mecânicas e menos da quantidade de atributos acumulados.
Visualmente, Ratatan aposta em cores vibrantes, criaturas expressivas e animações cheias de personalidade. Os personagens possuem características próprias e os Cobuns contribuem para a identidade bem-humorada da aventura, com reações e comentários durante a jornada.
O áudio merece destaque especial. A trilha sonora não funciona apenas como acompanhamento: ela ajuda a organizar o combate e reforça a sensação de que o jogador está conduzindo uma apresentação. As vozes dos Ratatans e as respostas das tropas também dão personalidade às batalhas.
Essa combinação audiovisual é um dos grandes acertos do jogo. Mesmo quando a tela fica cheia de inimigos, efeitos e comandos, existe uma energia contagiante que ajuda a manter seu charme.
A adaptação para o Switch 2 preserva os principais méritos da experiência, mas não chega tão polida quanto se poderia esperar de uma versão final após um período de acesso antecipado no PC.
Há alguns engasgos de desempenho em situações específicas, incluindo momentos próximos a chefes, além de falhas visuais e problemas de espaçamento em alguns textos. A interface também sofre com letras pequenas e ausência de uma opção para aumentar a escala dos elementos na tela, o que prejudica a leitura no modo portátil.

A estrutura roguelike combina naturalmente com as batalhas musicais, mas também cria uma dificuldade de ritmo fora da música: a repetição.
Revisitar cenários e enfrentar inimigos semelhantes faz parte da proposta, porém a variedade de fases e situações nem sempre acompanha a duração da progressão. O resultado pode ser uma sequência de partidas em que repetimos os mesmos procedimentos até acumular recursos suficientes para avançar.
A experiência também exige atenção constante. Para alguns jogadores, acompanhar o personagem, os comandos rítmicos e os acontecimentos da batalha será justamente a graça. Para outros, essa sobrecarga pode transformar os confrontos em uma confusão visual e mental.
A boa notícia é que o núcleo do jogo continua divertido. Quando a música, os comandos e as decisões estratégicas se encaixam, Ratatan oferece uma experiência difícil de encontrar em outros jogos de ação.
Ratatan é um sucessor espiritual competente de Patapon e uma evolução interessante da fórmula original. A combinação de comandos musicais, controle direto do protagonista, oito personagens jogáveis e progressão roguelike oferece variedade suficiente para sustentar muitas tentativas.
Ratatan acerta onde mais importa: o combate musical é divertido, a apresentação é encantadora e a vontade de tentar mais uma partida surge naturalmente. Falta polimento para que essa ideia alcance seu potencial máximo, mas a aventura já consegue mostrar que existe espaço para uma nova geração de jogos inspirados em Patapon.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria do jogo pelo acesso à versão de Switch 2 do jogo para este review.
