⚠ Atenção: o texto a seguir pode conter alguns spoilers leves do endgame e do conteúdo da expansão, Endless Ragnarok, de Granblue Fantasy: Relink.
A nova expansão de conteúdo de Granblue Fantasy: Relink é megalomaníaca. Para o bem e para o mal. Essa é a palavra que julguei ser a mais adequada para tudo o que encontrei em Granblue Fantasy: Relink –Endless Ragnarok, embora ainda tenha uma base sólida. Saiba mais a respeito do jogo, em sua versão mais consistente, e o que achamos das novas aventuras e descobertas em Zegagrande.
Uma não-expansão (?)
É cristalino como água pura como a percepção mudou demais com relação à nossa review de Granblue Fantasy: Relink. A jogabilidade aposta muito mais no mesmo e numa interminável e maçante repetição enquanto nos desdobramos para maximizar itens e aprimorar armas visando o crescimento exponencial no jogo com os personagens favoritos.
No quesito ‘personagem’, ele entrega certo frescor, dada a variedade deles e delas. A expansão traz mais alguns personagens diversos para adquirir e aproveitar, o que é muito interessante. Até aqui, tudo bem para um RPG ambicioso e grande como este. Mas elaboro sobre os maiores desconfortos adiante.
E quanto a história? Bem, somos forçados a aceitar pouquíssimas migalhas de construção de mundo e uma singela produção audiovisual. As novas histórias de personagens e dragões canônicos são contadas em telas de textos e uma imagem estática ao fundo (como as apresentadas nos contos individuais dos personagens desbloqueáveis, as “Missões do destino”), além de existir pouquíssimas animações de novos personagens e momentos únicos, os quais fazem muita diferença no conteúdo principal/base.

Antes de acessar o conteúdo extra [o da expansão de fato], a princípio, é preciso fazer toda uma “lição de casa” e concluir capítulos, missões e até evoluir armas até a sua ascensão específica. Não faltam wikis por aí com guias, mas tudo não deixa de ser extremamente trabalhoso, exigindo a conclusão de inúmeras missões do 7º nível de dificuldade e um PDR mínimo de 17.500. O epílogo, somado a isso, é tão arrastado quanto as rodadas de grind requeridas e sugeridas.
O jogo expande muito do seu conteúdo, sim, mas não passa da parte puramente mecânica e central, apenas adicionando camadas e mais camadas de maximização de recursos, armas e itens, na prática. Talvez não seja o tipo de conteúdo que o público ocidental espera na maioria das vezes, se tentarmos cravar um dos principais problemas dessa IP da Cygames.
Os novos vilões não são interessantes e não bastam como um recurso narrativo que prende a atenção. Tampouco os novos contos a respeito do passado desse universo, que parecem tão interessantes, e o legado dos seis dragões. É tudo muito fraco, nada é bem explorado como deveria ser. Um grande desperdício, portanto.
Absolutamente tudo é muito mais simples do que o conteúdo base, o que decepciona muito e me faz recomendar apenas a narrativa principal mesmo, o “coração” de Granblue Fantasy: Relink… Vale pontuar que qualidade da escrita das narrativas extras desta expansão cai substancialmente também. E os problemas não acabam aqui (antes fosse somente a economia de conteúdo mesmo, a “carne” a ser mordida desse tipo de jogo).
Espiral eterna de pontos e massarocas
Endless Ragnarok gira em torno da sua própria espinha dorsal, do seu loop de gameplay: vá ao Balcão de missão; escolha uma missão da grade de dificuldades, por região ou por tipo de desafio; conclua os objetivos no combate (todos duram de 4 a 10 minutos cada, no geral); repita tudo. Conforme você conclui mais missões, pode melhorar armas no ferreiro com materiais recebidos dos loots ao fim de cada uma delas e aprimorar seus personagens com novos selos e Pontos de Maestria.
Há uma torrente de itens que ficam inúteis rapidamente, após seu uso instantâneo no ferreiro para subir os níveis das armas. É compreensível que sejam reutilizáveis para mais armas de outros personagens desejados, porém o desuso ou até a recorrente falta destes é muito visível e acaba se tornando outra massaroca de trivialidades dentro do jogo, nos levando a mais repetição de combates e maximização. Ou seja, o grind é mais do que esperado e toma destaque na experiência total.
Ao invés de facilitar a aquisição de itens com uma loja melhor ou Trocas de Itens de Sierokarte mais eficazes, o jogo vai em direção completamente oposta. Dificulta o trabalho do grind, sobrecarrega o jogador com uma quantidade imensa de itens diferentes e adiciona camadas e mais camadas de missões repetitivas sem um “recheio” narrativo plausível. Só é muito entediante.

Todo esse processo seria compreensível se os chefes e hordas fossem variados e nos oferecessem uma ampla gama de diversidade visual e mecânica, mas esse não é o caso e está longe de ser, infelizmente. Para vocês terem uma ideia, Elden Ring deixa esse aspecto de Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok no chinelo. E olha que não é o melhor exemplo que me vem à mente, em se tratando de variedade de chefes…
Para piorar ainda mais a experiência, as melhorias de qualidade de vida não são abrangentes o suficiente para fazer com que selos e itens sejam buscáveis no menu, filtrados no catálogo de missões e do ferreiro ou, tampouco, terem uma filtragem mais condizente com a UI dos personagens.
O que serviria de respiro de alívio, as missões de Confluência, que imitam roguelikes e entregam combates um pouco mais rápidos sob uma dinâmica de progressão diferente e muito mais recompensadora, apenas aparecem entre evoluções de dificuldade, ou seja, após muito tempo de grind e avanços lentos. Isso soterra ainda mais a sensação de novidade, asfixiando o jogador com mais conteúdo repetido, mais mecânicas e mais barrinhas para encher e/ou missões para completar.
Endless Ragnarok é para quem busca satisfação mecânica
É de se perguntar, já que ele aumenta tanto em sua escala nuclear, se não valeria a pena fazer algo realmente diferente e fresco, para além de somente um sistema roguelike meio genérico. Um mundo aberto e desafios mais variados (usufruir da sua polidez com plataformas, por exemplo) são ligeiras ideias que fogem à regra e surpreenderiam bastante. Mas, não, Endless Ragnarok dá 10 vezes mais do mesmo, apostando alto em desafios repetidos ao extremo.
Contudo, jogos assim têm seu grande valor. Se você procura algo para desligar o cérebro e sair lutando enquanto aperta botões sem parar, por horas a fio, Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok é a escolha certa. Ainda que “sem alma”, a distração audiovisual em formato de RPG que ele pode proporcionar é bastante único e satisfatório, bastando entrar no espírito dessa aventura ridiculamente prolongada. Seu ciclo dopaminérgico é infinito, além de ser um bom anime até certo ponto.

A verdade nua e crua é que a expansão insere pouquíssimas cenas e diálogos interessantes ao conteúdo, se diluindo copiosamente em meio a tanto combate repetitivo e tedioso. A premissa é fraca, portanto, e não serve para vender a expansão em si de verdade. Funciona apenas para quem nunca o experienciou desde o início, reforçando que o jogo base (ou sua história principal original) é infinitamente melhor.
Independente disso, Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok respeita pouquíssimo ou quase nada o tempo de quem joga. Não passa de uma requentada desnecessária para um jogo já bem estruturado, adicionando trivialidades que o inflam ao máximo e deixam o conteúdo extra em segundo plano, apesar de melhorias imperceptíveis de qualidade de vida e em alguns aspectos mecânicos.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Cygames pelo código da versão de PC do jogo para a produção deste review.
