Lançado pela primeira vez em 1997 para o primeiro PlayStation, Final Fantasy Tactics faz jus à sua fama, por se tratar de um dos RPGs mais influentes não só de sua geração, mas da história dos videogames como um todo. A ideia plantada em Tactics Ogre, jogo antecessor a ele, dirigido também pelo mago Yasumi Matsuno, floresceu e tornou-se belíssima em Tactics, trazendo aos jogadores não só uma experiência repleta de profundidade em termos de jogabilidade, mas também de temática.
Lidando com assuntos extremamente maduros, especialmente para o momento histórico no cenário dos jogos, Final Fantasy Tactics se passa na terra fantasiosa de Ivalice, cenário que veio depois a servir de pano de fundo para outro clássico da Squaresoft, como Vagrant Story, sem falar de Final Fantasy XI e Final Fantasy XII. É lá que a guerra rola solta entre duas facções em busca do poder supremo, gerada pela instabilidade política da região trazida pela fraqueza da monarquia e a ambição da classe dominante.
Por falar em classe, é um assunto recorrente no jogo, visto que seu protagonista, Ramza, mesmo sendo membro da aristocracia, por ser filho bastardo de um nobre, acaba que por ser visto por outros como um invasor, enquanto que os camponeses por quem ele tanto preza, o repudiam. Tal conflito está sempre em primeiro plano enquanto outros vão se mostrando no mover da carruagem, havendo traições e alianças que se tornaram recorrentes na ficção de fantasia atual, mas que em 1997 mostraram-se uma das mais fortes características de Final Fantasy Tactics.
Com Final Fantasy Tactics: The Ivalice Chronicles, temos uma versão que pode, sem sombra de dúvidas, ser considerada a definitiva do jogo. Elementos que antes se mostravam problemáticos, como a tradução às vezes confusa do roteiro original e a navegação um tanto trabalhosa dos menus, foram corrigidos neste novo lançamento, além de incluir muitas outras melhorias para facilitar o jogar e deixar tudo redondo, de acordo com as expectativas de um lançamento atual. O resultado final é algo extremamente gostoso de jogar e perdidamente viciante.

O grande atrativo de Tactics é o fato de ser a mistura de toda a personalidade do mundo de Final Fantasy com uma partida de estratégia de mesa, onde seus personagens são todos altamente personalizáveis, sendo que suas habilidades são ditadas por diversas estatísticas, dependendo até de seus signos do zodíaco. Por isso, é preciso prestar atenção em fatores que até então, em outras versões do jogo, eram bem enigmáticas pelo fato de não haver uma explicação clara disponível para consulta.
Agora, tudo está às claras dentro de um parrudo glossário em The Ivalice Chronicles e, apesar de não ser simples de entender logo de cara, é apresentado de maneira muito melhor. Basicamente, todos os personagens do jogo possuem dois dados que regem qual caminho devem seguir, ou de mágica, ou de força bruta. Tendo uma fé alta, o boneco é capaz de causar mais dano com encantamentos, ou curar melhor, mas, em contrapartida, a tendência é de sofrer mais com ataques físicos, o mesmo valendo, só que ao contrário com uma pontuação alta no outro quesito. Comicamente, com um fator de coragem baixo, há também a possibilidade de, em batalha, seu guerreiro perder a vontade de lutar e até virar um frangote!
Piadas à parte, há muito mais a levar em conta, um complexo ramo de interações entre números nos bastidores, mas é tudo colocado na prática de maneira divertida, oferecendo bastante flexibilidade e variedade para formar equipes ecléticas, o que confere ao jogo uma gama enorme de possíveis situações, tanto favoráveis quanto mais complicadas para você, o jogador. Final Fantasy Tactics pegou emprestado de Final Fantasy V seu sistema de classes, onde é possível trocar de funções sempre que necessário, além de evoluí-las conforme se joga e utiliza suas habilidades em batalha.
Por exemplo, se você pretende ter um dos icônicos cavaleiros dragoon em seu grupo, primeiro terá que treiná-lo como um escudeiro, para depois ser um monge, eventualmente um ladino, até levá-lo ao caminho dos saltadores armados. Nesse caminho, ele poderá adquirir habilidades de cada uma dessas etapas, para depois usá-las, você desejando, como um dragoon multifacetado. Com o sistema de classes de Tactics, é possível criar unidades realmente únicas, onde o céu é o limite, de verdade.

E colocar todos esses personagens em ação é a melhor parte do jogo. As batalhas acontecem em fases em forma de tabuleiro, do ponto de vista isométrico, que apesar de atrapalhar um pouco a visualização devido às limitações de ângulo de vista, funciona bastante bem. É preciso levar em conta a distância entre seus soldados e os inimigos, além da elevação e tipo de terreno, por exemplo, ao utilizar habilidades, e o mesmo vale para protegê-los. Tudo isso e muito mais entra naquela matemática que às vezes parece maluca, mas que funciona, proporcionando momentos incríveis de diversão.
Lado a lado com a guerra vem uma história absolutamente fantástica para trancar de vez Final Fantasy Tactics como um dos melhores jogos da franquia. É difícil colocar em palavras o quanto ela abalou as estruturas da indústria quando estreou há quase 30 anos, mas é ainda mais impressionante o fato de continuar sendo tão boa quanto hoje em dia, neste relançamento, tratando de assuntos atuais de maneira adulta, sem rodeios. Sim, é possível falar disso e ainda ter bichinhos fofinhos, acredite.
Final Fantasy Tactics: The Ivalice Chronicles traz melhorias significativas para a experiência de se jogar esse clássico. Primeiro, seu roteiro e tradução seguem a planilha estabelecida pelo primeiro relançamento do PSP, o Final Fantasy: War of the Lions, apesar de carecer do conteúdo extra dessa versão, e vale relembrar que não há localização em Português do Brasil, pelo menos não oficialmente. É uma pena a Square Enix não ter investido em um jogo com tanto peso ao trazê-lo para cá, porque há bastante texto e diversos idiomas, menos o nosso.
A apresentação também passou por uma boa reforma. Os gráficos, mesmo que não redesenhados, agora têm um filtro que os confere um visual de pintura por assim dizer, e nas caixas de diálogo as cabecinhas dos personagens agora mexem as bocas, para seguir a faixa de som das novas atuações de voz. Essa é outra novidade muito bem-vinda, com atuações excelentes usando diferentes sotaques britânicos para o diálogo, conferindo ao jogo um ar ainda mais denso em fantasia medieval, por assim dizer.

Do ponto de vista da jogabilidade, a facilidade de acesso a informações sobre seus sistemas de jogo é um bônus e tanto, além de haver toda uma repaginada para os menus, simplificando a navegação na hora de administrar suas tropas, ver quais classes cada um de seus personagens está próximo de chegar, etc. Mas se você não estiver com vontade de curtir nada disso, a versão original do jogo do PlayStation está lá para ser jogada, basta selecioná-la no menu principal. A única mudança nela é a tradução, que mantém a mesmo do jogo principal, já que a original de 1997 é considerada falha hoje em dia.
Sem mais rodeios, Final Fantasy Tactics: The Ivalice Chronicles é praticamente uma obrigação para fãs de RPG e adoradores de boas histórias em seus videogames. O que temos aqui é um dos mais impressionantes trabalhos de relançamento já vistos, tanto que é difícil chamar de um simples remaster, mas também não chega a ser remake. Nomenclaturas à parte, é um jogaço e é imperdível. Corra e coloque essa joia em sua coleção. É pra ontem!
Review elaborado a partir da versão física do jogo lançada no Brasil para o PlayStation 5 adquirida pela equipe do Entertainium Brasil.
