Enquanto Hollywood tem trabalho em decidir quem será o novo James Bond após a saída de Daniel Craig da franquia, o estúdio interativo IO Interactive, conhecido pela excelente série Hitman, junto da MGM (agora propriedade da Amazon), apresenta uma versão mais jovem do personagem, em início de carreira, em seu novo jogo, 007 First Light.
Seguindo a cartilha das aventuras de 47, o agente secreto mais famoso da cultura pop vive a primeira grande missão de sua carreira, que apesar de não trazer tanta da liberdade a que estamos acostumados depois do incrível Hitman: World of Assassination, conta com todo o charme do personagem criado pelo autor britânico Ian Fleming, que este ano completa 73 anos desde a publicação de seu primeiro livro.
007 Fight Light apresenta uma nova versão de James Bond, no início de sua carreira no MI6, mostrando o que levou ao seu recrutamento, durante e após seu árduo treinamento, e, eventualmente, seu mergulho de cabeça em uma trama de escala mundial. Esta última trata de temas atuais, lidando com o avanço descontrolado da inteligência artificial e a manipulação de informações, e em termos gerais, é bem desenvolvida no decorrer do jogo.

Outro aspecto que First Light acerta é a caracterização de seus personagens. O ator Patrick Gibson (Dexter: Pecado Original) dá vida a Bond e mostra-se confortável no papel, esbanjando personalidade e humor, uma excelente contrapartida a Lennie James (o Morgan, de The Walking Dead), que interpreta seu mentor a contragosto, além de trocar cantadas e compartilhar diálogos divertidos com Moneypenny (Kiera Lester) e outras das femme fatales de 007 First Light. Lenny Kravitz também faz uma ponta como Bawma, uma figura perigosa que à primeira vista é apresentada como antagonista, mas é pouco utilizado.
Enfim, tudo o que faz de Bond a figura emblemática do entretenimento está bem presente aqui, e nisso a IOI caprichou, fazendo valer sua experiência de décadas com o carequinha, além da dupla Kane e Lynch, sem falar do esquecido Freedom Fighters. Por mais que 007 First Light careça da sensação de liberdade que World of Assassination instaurou, trazendo atividades quase que infinitas dentro de “caixinhas de areias” vastas e repletas de possibilidades devido à sua estrutura mais rígida, guiada pela história, o que acaba sendo entregue é bem próximo à experiência dos melhores filmes do agente na telona.
No entanto, há partes da experiência que não casam muito bem com a qualidade elevada de sua apresentação. A principal, infelizmente, é quando a ação rola solta. O combate, principalmente mano a mano, é bem mediano, dependente do mesmo esquema de contra-ataque e desvios a que estamos acostumados desde Batman: Arkham Asylum, mas sem a mesma elegância introduzida em 2009 pela Rocksteady. É perceptível a tentativa da IOI em trazer uma versão mais contida e perto do realismo neste jogo, mas a falta de uma trava entre alvos fica evidente quando há mais de dois inimigos simultâneos, o que pode gerar certa frustração nos momentos mais caóticos.

O mesmo pode-se dizer dos tiroteios. Depois de jogar os clássicos desenvolvidos pela Naughty Dog, que elevaram o sarrafo dos mata-matas em terceira pessoa com a série Uncharted, é difícil não os comparar o uso de armas de fogo de 007 First Light, que mesmo introduzindo as maravilhosas engenhocas do talentoso Q (Alastair Mackenzie, de Andor) à equação de violência dessa produção, fica aquém, com mortes repetidas do coitado do Bond nas mãos do jogador, que só quer avançar para a próxima parte da trama e ver em que confusão ainda maior o cara vai se meter.
Falando em invenções mirabolantes, 007 First Light traz de volta grandes clássicos da franquia Bond, começando pelo seu relógio de pulso, ao qual o jogo faz questão de ostentar a marca real, que é o centro de operações do agente secreto. Com ele, é possível averiguar os arredores e descobrir o que pode ser hackeado, além de oportunidades de interação, ítens colecionáveis e, a funcionalidade mais útil de todas, a visualização de inimigos através de paredes, a versão do instinto de 47 adaptada para o protagonista da vez.
Mas os brinquedos não param aí: há vários bastante interessantes e que podem ser levados durante as missões do jogo, com a limitação inicial de dois (melhorada para quatro até o final dele), cada um com suas utilidades, servindo para você se aproveitar das oportunidades apresentadas pelo roteiro do jogo ou, como falamos, em meio ao combate. São essas geringonças que, junto das piadinhas oportunas de Bond, fazem de 007 First Light se elevar de jogo de ação mais mediano a uma experiência divertida, especialmente para fanáticos da franquia.

Se você for um adorador de tudo que Hitman vem oferecendo ultimamente, calma, há uma palhinha para você. Trata-se do modo de treinamento, um simulador que vem separado da campanha principal do jogo, pronto para oferecer desafios especiais em formato escalonado, o mesmo dos últimos Hitman, em que os objetivos evoluem conforme você vai avançando, aumentando em dificuldade organicamente.
Aqui, há um pouco de tudo do que o jogo oferece, com fases lidando com lutas, espionagem e direção de veículos, junto de um sistema de pontuação e nivelamento que ocuparão seu tempo depois que zerar o modo campanha, que por si só já é consideravelmente parrudo, com mais de 15 horas de duração. Falta saber se haverá o mesmo nível de suporte pós-lançamento na linha de World of Assassination, se esse for o caso, será o grande trunfo na manga de 007 First Light, já que a IOI vem se mostrando uma das desenvolvedoras mais cuidadosas e generosas com seus jogadores, com conteúdo de extrema qualidade quando o assunto é assassinato e confusões para o 47 se ocupar.
First Light não é nenhum GoldenEye, mas bem como James Bond 007: Everything or Nothing, é algo que é elevado pela marca atrelada. Mesmo com as limitações decorrentes da necessidade do roteiro do jogo, que além de conter o potencial de absoluta criatividade por parte de quem joga, junto dos problemas relacionados à jogabilidade em momentos de ação, o que há disponível em 007 First Light faz excelente uso da licença e cabe muito bem entre o que há de mais divertido para se consumir quando o assunto é James Bond.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da IO Interactive pelo envio antecipado da chave de jogo versão PS5 para a produção deste review.
