“A guerra mudou.” São essas as palavras que dão início a Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots, ditas pelo Velho Snake, o protagonista de grande parte da série, desde o Metal Gear original, lançado em 1987 para o computador MSX2. E ele está certo, a guerra mudou, não só na realidade alternativa de 2014 em que o jogo se passa, mas também na nossa realidade atual, em 2026. O uso cada vez maior de drones, a economia da guerra e tantos outros conceitos explorados nos jogos Metal Gear se tornaram reais em nossas vidas, e apesar de ainda não haver de fato nanomáquinas, nós com certeza estamos sob a ameaça crescente da temida I.A se deixarmos os bilionários da indústria tecnológica livres para fazerem o que quiserem.
MGS4: Guns of the Patriots foi lançado originalmente com exclusividade para o PlayStation 3 em junho de 2008. Até hoje, nunca havia sido adaptado para nenhum outro console ou sistema. As pessoas culparam as limitações tecnológicas do hardware do PS3 e, por isso, o jogo acabou caindo no ostracismo por praticamente 18 anos. Finalmente, com a Metal Gear Solid Master Collection Vol.2, a sequência do primeiro volume, de 2023, temos uma solução para o problema.
Essa coleção não só traz Guns of the Patriots, mas também Metal Gear Solid: Peace Walker, um título que se originou no PSP no ano de 2010 e que já havia sido adaptado para consoles da época, o PS3 e Xbox 360, um ano depois como também Metal Gear: Ghost Babel – conhecido simplesmente como Metal Gear Solid em alguns territórios – antes um exclusivo absoluto do Game Boy Color, lançado lá atrás, em 2000. Mesmo tendo uma quantidade menor de jogos que o Vol.1, o Vol.2 traz três jogos que eram extremamente difíceis, quase que impossíveis de serem jogados fora suas versões originais.
Começando com a atração principal desse novo coletivo, temos Guns of the Patriots. Uma verdadeira maravilha técnica quando estreou no PlayStation 3 – tanto que necessitava um processo de instalação extremamente demorado no console, em que o Velho Snake fumava um cigarro à medida que a barrinha de progresso avançava aos poucos. Era belíssimo para aquele momento na evolução dos games, mas sofria para rodar a 30 quadros por segundo. No geral, a versão do jogo incluída aqui é uma adaptação sem muita frescura, mas eficiente, de Guns of the Patriots, em que a Konami aplicou uma resolução de tela mais alta do que a original no PS3, incluindo controles mais modernos (inclusive, no PC, oferecendo suporte para teclado e mouse), tudo lisinho a 60fps. Não há opções gráficas avançadas além FXAA para antisserrilhamento, só a escolha de resolução e algumas poucas configurações padrões. Mesmo assim, tudo funciona sem bugs e ah, os carregamentos são beeeem mais rápidos desta vez, ainda bem.

Algo que nos deixou bem animados foi a retenção de toda a parafernalha de marca e o conteúdo patrocinado foram mantidos; Snake ainda usa um iPod da Apple, há revistas Playboy para ele encontrar, enquanto que no PC e Xbox, é possível achar um PS3 e PSP intactos, o que não acontece na versão de Nintendo Switch, devido à insistência da Nintendo em não mostrar produtos de seus competidores em seus jogos. Na coletânea, MGS4 traz de volta a Metal Gear Solid 4 Database, que antes era um aplicativo separado no PS3, agora como parte incluída no jogo. Essa base de dados é essencialmente uma enciclopédia de toda a história da franquia até o momento do lançamento original da quarta parte, sem qualquer tipo de atualização feita atualmente, para levar em conta os eventos de futuros jogos e até mudanças do cânone da saga Metal Gear, de Peace Walker, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, ou Metal Gear Rising: Revengeance.
Guns of the Patriots é extremamente linear, repleto de longas cenas pré-gravadas (que chegaram até a ganhar um prêmio no livro dos recordes da Guinness por isso), mas quando você tem finalmente a oportunidade de jogá-lo, é um jogo de tiro e furtividade incrível e divertido, uma evolução clara de Metal Gear Solid 3: Snake Eater. É também a origem de conceitos que eventualmente seriam desenvolvidos sob forma de missões em mundo aberto de The Phantom Pain. A camuflagem ótica de Snake permite que ele se misture naturalmente ao ambiente, e o agente tem acesso a uma variedade absurda de apetrechos que oferecem diversas possibilidades quando chega a hora de enfrentar inimigos. No entanto, se Snake matar muitos deles, sua força mental é afetada, fazendo-o vomitar e perder pontos de vida se sofrer com muito estresse. Sem dúvida, o grande destaque do jogo é a sua história repleta de absurdos, totalmente maluca, e, tranquilamente, uma das melhores já escritas por Hideo Kojima.
A seguir, temos MGS: Peace Walker, quase que o protótipo para The Phantom Pain, de certa maneira. A versão contida na Master Collection Vol.2 é um relançamento com algumas modificações da que antes havia sido incluída na HD Collection desenvolvida pela Bluepoint Games, de 2011. As maiores diferenças são as cenas em estilo de revista em quadrinhos que foram remasterizadas e ficaram mais nítidas – não sabemos se algum tipo de I.A. foi usada para esse tratamento, já que nenhuma informação a respeito foi liberada – além de, claro, os controles atualizados para PC e consoles atuais. Ainda é possível assistir às cenas originais em sua qualidade mais baixa, como eram no PSP, caso deseje, além de trocar algumas opções de resolução. Os controles tanto em gamepad quanto teclado funcionam muito bem, e as instruções em tela foram atualizadas para levar tudo isso em conta, dependendo de qual dos dois você estiver usando para jogar (o soldado que apresenta o tutorial fala sobre seu mouse, por exemplo).

Muitos elementos de Peace Walker serão bastante familiares para quem já jogou Metal Gear Solid V; você cuida da Mother Base de modo parecido, colocando pessoas para cuidar de suas seções, como a de desenvolvimento ou combate para criar novas armas e táticas. E você também usa o sistema de captura Fulton para “pegar emprestado” novos soldados do campo de batalha e forçá-los a se juntar aos Militaries Sans Frontières (o exército sem nação de Big Boss). Devido às suas origens como jogo portátil, Peace Walker conta com missões mais curtas e rápidas de se zerar, e esse formato permite que você entre em um bom ritmo de jogo, entrando em missões, resgatando equipamento, recursos e pessoal, aos poucos atualizando seu quartel general. A história do jogo é de longe a mais política de todos, usando eventos reais como a revolução da Nicarágua e a Guerra Fria livremente, atuando como um prelúdio para Metal Gear Solid V: Ground Zeroes.
Finalmente, a cereja secreta da Metal Gear Solid Master Collection Vol.2: Metal Gear Solid: Ghost Babel. É um título no estilo do Metal Gear original e Metal Gear 2: Solid Snake de MSX2, um computador muito querido entre o público brasileiro. É jogado sob o ponto de visão isométrico, em 2D. É tecnicamente não-canônico já que se passa sete anos após os eventos de Metal Gear 2, ignorando o que aconteceu um Metal Gear Solid. Nele, Solid Snake recebe a missão de se infiltrar na fortaleza de Galuade, construída sobre as ruínas de Outer Heaven, para evitar que a Gilda Liberation Front (GLF) e seu líder, Augustine Eguabon, tomem posse de Metal Gear.
A jogabilidade é bem próxima à dos primeiros Metal Gear, incorporando algumas mudanças inspiradas em Metal Gear Solid. No lugar de telas estáticas, no jogo a câmera segue Snake enquanto percorre os ambientes até ele alcançar a transição entre telas, e os personagens são capazes de se mover em oito direções e não só para o norte, sul, oeste e leste, como antes. Snake também é capaz de se apoiar em paredes para se esconder e de bater nelas para atrair inimigos. A Master Collection Vol.2 tem algumas melhorias bem legais, como a funcionalidade de rebobinar a jogatina, caso você faça alguma besteira, e também a possibilidade de jogar com filtros gráficos, que incluem um modo pixelizado “perfeito”, uma emulação dos visuais produzidos pela telinha na proporção 4:3 do Game Boy Color com mais precisão, junto de uma escolha de papéis de parede para preencher o resto da tela.

Mesmo contando com menos jogos que o primeiro volume, a Metal Gear Solid Master Collection Vol.2 se mostra bem mais caprichada logo de cara e é historicamente importante, porque está libertando Guns of the Patriots e Ghost Babel depois de passarem anos presos em suas respectivas plataformas já ultrapassadas. Guns of the Patriots, em particular, agora tem a chance de ser visto por uma nova geração de jogadores como a parte-chave que é da franquia Metal Gear, uma das obras mais marcantes do portfólio do criador da série, Hideo Kojima. Se houver uma Master Collection Vol.3, gostaríamos que fossem incluídos ambas as partes de Metal Gear Solid V, Grounds Zeroes e The Phantom Pain, junto de outras sobras da série, como Metal Gear Solid: Portable Ops (outra exclusividade de PSP), junto de Revengeance e, para fins de colecionismo, por que não Metal Gear Solid Survive? A saga Metal Gear continua a ser uma das mais diferentes, estranhas e memoráveis franquias da história dos videogames, sem tirar nem pôr, não é mesmo?
Review originalmente produzido para o Entertainium. Clique aqui para conferir a versão original.
Texto traduzido e adaptado por Eduardo Rebouças.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Konami no Brasil pelo acesso à versão PC do jogo para a produção deste review.
