Faz um certo tempo que não vemos Tom Cruise em um papel que o transformou tanto quanto em Digger, novo filme de Alejandro González Iñárritu (Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância, entre outros), onde interpreta um mega-barão da indústria petroleira com um grande problema transbordando de suas mãos. Nessa comédia absurda e extremamente escrachada e exagerada, ninguém sai incólume, e, sem entrar em spoilers, nem tudo é o que aparenta ser na superfície.
Na produção, Cruise realmente encarna o sexagenário personagem, aderindo à sua pessoa por meio de extenso trabalho de maquiagem, todos os efeitos do tempo que teriam tomado o corpo de um homem que, ironicamente, tem a mesma idade do ator. Nisso, não só visual mas comportamentalmente, vemos em tela uma verdadeira metamorfose do ator, que de sua personalidade normalmente galã não vemos nada. Aqui, só existe o obstinado, ganancioso e muitas vezes aéreo Digger Rockwell.
Longe de passarem pela mesma transformação mas entregando interpretações marcantes estão os diversos atores que compõem o elenco de Digger, como John Goodman, no papel de uma versão muito próxima e de alguma maneira insana ainda mais cartunesca do presidente dos Estados Unidos, Riz Ahmed (O Esquema Fenício), que dá vida ao nervoso diretor da área de monitoramento de efeitos climáticos da empresa de Rockwell, Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda), a irmã sofrida de Digger e Jesse Plemons (Bugonia), um personagem enigmático na trama. Todos fazendo o possível para lidar – sem muito sucesso – com o turbilhão em forma humana de Cruise no filme.
A confusão toda, por sinal, acontece quando uma calota polar de tamanho gigantesco se solta de uma geleira continental na qual Digger tem uma plataforma de extração de petróleo. Rumo à Europa e com potencial para causar o caos completo por lá, Rockwell vê-se em uma sinuca de bico criada por ele mesmo, enquanto que o governo estadunidense liderado pelo desequilibrado Goodman toma todas as piores decisões para tentar dar cabo da questão. Nas suas mais de duas horas de duração, Digger, que já se inicia de maneira absurda, consegue tomar proporções cada vez mais épicas, até culminar em uma conclusão pra lá de mordaz.
Bem como a boa maioria dos filmes dirigidos por Iñárritu, Digger conta com uma produção de arte contundente, que garante a encorpada do delicioso e ao mesmo tempo picante quase ao ponto de tornar-se intragável caldo da mensagem do longa. Bem como Birdman, é uma história que se passa no mundo real, mas pontilhada por excentricidades que são a assinatura do diretor. Escrito também por ele em parceria com os vencedores do Oscar Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, seus parceiros daquele outro filme, Digger é uma cutucada contundente nas costelas do capitalismo e dos valores da sociedade moderna.
Por causa disso, é tranquilo dizer que essa não é exatamente uma distração que todos irão se apaixonar, isso é fato. Digger não mede esforços em tentar chocar e arrancar uma reação de sua platéia. Em vários momentos, com isso, certamente irá causar desconforto, valendo sempre lembrar que por mais que as coisas fiquem ruins, ainda se trata de um produto de entretenimento, e nesse quesito, pelo menos para nós, mostrou-se bastante eficaz.
Digger tem distribuição da Warner Bros. Pictures do Brasil e chega aos cinemas do país nesta próxima quinta-feira, dia 1º de outubro.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da distribuidora pelo convite da cabine de imprensa para a produção desta matéria.

