Review: Resident Evil Requiem casa as diferentes jogabilidades da série em um jogo de tirar o fôlego  

resident evil requiem

“Lendário” é uma palavra poderosa, mas mesmo assim aplicada de maneira exagerada e muitas vezes errada quando queremos descrever algo que consideramos bom e influente, só que no caso de Resident Evil, série de jogos da Capcom que este ano completa 30 anos, ela se encaixa perfeitamente. Transcendental, ela deixou de ser meramente um videogame, passando a participar – tudo bem que com resultados de qualidade diversas vezes duvidosa – no cinema e outros meios de entretenimento.

Nos jogos, que é a área que estamos lidando neste review, cabe dizer que Resident Evil é absurdamente influente. Tanto que, junto de alguns poucos antecessores como Alone in the Dark, foi o estopim para o gênero survival horror, além de, anos depois, ajudar a alavancar os de ação também, com Resident Evil 4. É uma franquia simplesmente única, pois de tanto tempo existir, acabou tendo que se reinventar algumas vezes desde sua origem, e o que vemos hoje com Resident Evil Requiem, o último lançamento, é a Capcom dando um belo nó nos ramos que ela iniciou, tanto com a nova geração, dada sua largada em Resident Evil 7, quanto o que se tornou um emaranhado dos jogos iniciais da franquia.

Requiem é chamado também de Resident Evil 9, mas está longe de ser o nono título sequencial. No entanto, em todos os outros sentidos, é a continuação da história em termos de trama, sendo o mais atual de todos cronologicamente. Nele, jogamos com dois personagens: Grave Ashcroft, filha de uma das personalidades selecionáveis do experimento multijogador Resident Evil Outbreak, e Leon, herói de muitos dos capítulos anteriores, agora mais velho e disposto a tudo para chegar a fundo de um mistério presente desde Resident Evil 2.

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Sim, eles estão de volta e mais bizarros ainda. Não, não estamos falando dos profissionais da área da saúde, e sim, zumbis.

A jogabilidade desta vez é dividida entre esses dois protagonistas. Com Grace, contamos com uma experiência mais próxima das dos últimos REs, ou seja, do ponto de vista em primeira pessoa e mecânicas mais próximas ao survival horror pelo qual Resident Evil é conhecido, enquanto que com o Sr. Kennedy, o sabor continua sendo a ação desenfreada, como vista em suas últimas aventuras, em terceira pessoa. Dito isso, é possível trocar a câmera entre os dois tipos sempre que for preferível, mas esse é um diferencial que caracteriza o modo de jogar dos dois personagens, então decidimos manter a configuração padrão no decorrer de Resident Evil Requiem.

Inicia-se a jornada na pele de Grace, que trabalha como uma agente do FBI em investigação da morte misteriosa de alguns dos sobreviventes da calamidade em Raccoon City, pivô da saga Resident Evil, que a leva a um hotel em estado de fechamento, onde, por coincidência, foi onde a sua mãe faleceu anos atrás. Não demora muito para tudo começar a dar errado, com a garota virando cobaia em uma sala de examinação dentro de uma clínica mal-assombrada por um monstro gigante. Ela, com poucos meios de se defender, tem que descobrir uma maneira de fugir com vida de lá. Enquanto isso, Leon percorre as ruas da cidade em plena eclosão de uma nova pandemia do Vírus-T, eventualmente chegando à mesma clínica e dando de cara com Grace.

O jogo vive trocando com qual personagem você joga, dependendo do momento da história em que se encontra. Isso ocorre de modo bem orgânico, para que um tenha tempo de chegar ao ponto em que o outro está, mesmo que nos bastidores, por assim dizer. Tal dinâmica faz do jogar Requiem uma montanha-russa de sensações, pois não deixa você se assentar em um estado de espírito por tempo suficiente antes de puxar o tapete e te colocar em outra situação diferente e ainda mais complicada. É algo que permeia todas as quase 15 horas de jogo em sua primeira jogada, sem tirar o pé do acelerador. Apesar de não haver grandes novidades de jogabilidade se você já estiver em dia com Resident Evil, é tudo tão bem feito e coordenado que mesmo sem inovação, é um jogo divertido e o mais importante, bem flexível tratando-se de dificuldade.

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Não é Silent Hill, mas outra localidade emblemática entre os jogos de horror nos últimos 30 anos.

Claro, para aqueles que vivem se desafiando, tentando zerar seus REs sem utilizar ítens de cura e com inimigos fortíssimos, há a opção de fazer o mesmo aqui, como de costume, mas para aqueles que estão só em busca da adrenalina sem compromisso, achará muito deles aqui. A facilidade faz-se presente, por exemplo, na quantidade de objetos necessários para criar mais munição, ou as famosas ervas medicinais, em abundância sempre, junto da possibilidade de salvar o jogo sempre que quiser, e mesmo assim sem tirar a tensão magistralmente tecida pelos desenvolvedores da equipe do diretor Koshi Nagashiki

O que foi conquistado em Resident Evil Requiem vem sendo carregado desde a reinvenção da marca em 2017 é mesclado ao pesado fardo do legado da série, um que permeou nessas três décadas de existência, servindo de uma colcha de retalhos, muitos deles sem respostas claras, algumas das quais são resolvidas aqui. Apesar da grande surpresa do jogo ter sido escancarada durante seu marketing pré-lançamento, a da volta de Leon à Raccoon City e o malfadado Departamento de Polícia (RPD), ainda há muito para o fã de longa data se deliciar na mais pura nostalgia, a principal arma no arsenal de desenvolvedores hoje em dia e a pleno vapor neste jogo.

Algo que Resident Evil tentou se distanciar e felizmente veio a abraçar novamente com a reinvenção de seu segundo título são os zumbis e nos alegramos em vê-los outra vez em Requiem, sem qualquer tentativa de dar qualquer outra nomenclatura a eles. Não são ganados nem mofados, são os mortos-vivos mais vivos já vistos. Aliás, eles retém certa inteligência, vindo a ser tornar ameaças reais e muitas vezes letais. É algo com que o jogo brinca muito bem ao apresentar obstáculos, fontes de muita tensão no decorrer da jornada. São ainda mais nojentos que de costume e não poderíamos estar mais entusiasmados ao poder estarmos presentes e presenciar a evolução do conceito desse inimigo, peça-chave da franquia. Tudo graças à tecnologia e às inovações em termos de programação de comportamento e como lidam com a sua presença.

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Vem cá dar um abraço no tio!

Não é de se surpreender que Requiem é um jogo de produção riquíssima em detalhes. Utiliza-se do mesmo sistema de gráficos RE dos últimos grandes lançamentos da Capcom, que lhe confere uma qualidade absurda de efeitos de luz, especialmente atmosféricos e colocados em prática na ambientação assustadora da aventura. Poder também rever os ambientes de Raccoon depois de quase 30 anos desde sua devastação trouxe ao nosso saudoso coraçãozinho um misto de aquecimento e pavor que é quase injusto de tão bem explorado, mesmo que entre cenas de ação bombásticas no papel de Leon. E falando sobre o dito cujo, diga-se de passagem, o rapaz envelheceu muito bem, ainda mais quando comparado ao seu visual no remake de Resident Evil 2, como o próprio Requiem faz alusão no momento certo.

Críticas à falta de grande inovação à parte, Resident Evil Requiem é primoroso no que faz, mesclar as duas poderosas vertentes que a franquia vem carregando nos últimos tempos ao mesmo tempo em que tenta (e tem sucesso) ao amarrar algumas das pontas soltas do cânone de Resident Evil, deixando o campo aberto de futuros e inevitáveis novos capítulos. Levando em conta que a marca permanece entre as mais fortes da Capcom, esta com toda a certeza não será a última vez que agarramos as nossas lanternas e deixamos uma mão próxima à arma mais próxima. E mal podemos esperar pelo que vem a seguir. Bom, podemos até podemos, pelo menos até recuperarmos o nosso fôlego depois de zerarmos este daqui.

O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Capcom no Brasil pelo fornecimento da chave da versão de PC do jogo para a produção desta matéria. 

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