Segundo filme dirigido por Djin Sganzerla, Eclipse foi visto por nós do Entertainium no começo de maio, mas a demora para escrita desta crítica se dá por um motivo simples: ele é uma película forte, mas notavelmente falho. Como desenvolver isso para alguém que há muito não escreve sobre o cinema tornou-se uma tortura, então optei por um caminho que talvez não seja o ideal mas vale o experimento.
Tematicamente, o titulo Eclipse dentro do filme se encaixa como o assunto que une as meias-irmãs mesmo com suas vivências e diferenças: Cleo, a protagonista vivida pela própria diretora, e sua visão científica por estar imersa no mundo da astronomia, e Nalu (Lian Gaia) que, na falta de termo melhor, traz a percepção mística por conta de suas origens indígenas para o fenômeno — “algo que se oculta as coisas”.
Mas a temática real do eclipse na película é outra: para Cleo, é a visão de quem seu pai realmente era; para Nalu, a percepção que a aparência externa de uma vida bem ajustada de sua meia-irmã não era a realidade; e, por fim, para a audiência, uma tentativa de denotar as dificuldades da realidade feminina na sociedade atual.

Cria-se então uma curiosa experiência em que a tensão narrativa principal é sempre trabalhada em uma perspectiva de coisas ocultas, mas me parece que fora de Cleo lidar com a realidade da pessoa que seu pai era, as outras são somente pontos soltos, utilizados e comentados rapidamente pela narrativa para dar alguma liga aos dilemas da protagonistas mas sem levar em conta que existem outros personagens ali — Nalu, em especial, me parece uma persona extremamente interessante e que poderia ter seus dilemas e “dores ocultas” muito mais explorados, mas durante boa parte do filme me parece existir somente para que Cleo possa progredir sua própria história.
A própria tensão entre as duas irmãs que, pela sinopse oficial do filme, seria o fio condutor principal é resolvido em um intervalo de tempo muito curto, com as duas se conectando pelas dificuldades gerais de serem mulheres e, embora a intenção dessa escolha seja clara e sinceramente boa, a realidade é que me deixou um gosto meio amargo de algo desenvolvido forçadamente, sem o carinho orgânico que poderia muito bem ter sido trabalhado ali.
Ao mesmo tempo, tudo isso permeia somente uma parte do filme, com a outra introduzindo um site análogo as imageboards variadas da internet a fora popularizadas pelo 4chan para trabalhar situações de ódio ao feminino ou de discurso red pill e também o empasse extremamente desconfortável de Nalu com um chefe abusador e extremamente machista.
O eclipse mais uma vez se consolida, a partir de uma fotografia e sonoplastia que tenta acima de tudo evidenciar a tensão e o desconforto da realidade feminina, em pontos previsíveis e em um final um tanto aberto que tenta criar curiosidade junto de desconforto — mas que no fim só parece uma tentativa um tanto atrapalhada de fechar uma história que se beneficiaria de muito mais desenvolvimento e tempo para os demais personagens.

Existe uma discussão acadêmica na area de literatura e que eu, particularmente, acho extremamente pertinente para o mundo da arte como um todo, em que a autoria nunca realmente está no material criado mesmo que ela pareça ter tons autobiográficos — sempre existe uma máscara minima posta no que se torna a obra para que ela funcione e possa ser deglutida.
Para mim, Sganzerla tentou fazer algo sem essa máscara, explicitando as dores e as dificuldades do mundo feminino como um todo. Só que a tal máscara é o que permite que as coisas se tornem mais concisas e deglutíveis para quem interage com a obra e, na tentativa dessa elaboração complexa de temas, o filme acaba tendo uma mensagem que talvez não seja transmitida com a excelência que o conjunto de fotografia, direção e atuações poderiam entregar.
Mas, talvez, isso torne o filme por si mais forte. Uma experiência tão tortuosa como a exemplificada por Cleo e sua irmã na narrativa não é linear, completa ou mesmo um quebra-cabeça que se encaixa perfeitamente. O que o eclipse pode ocultar, no fim, é o quanto o trauma aqui representado não é linear, mas sim complexo e dismorde — o tradicional, as expectativas comuns, não dariam conta de representar o verdadeiro desconforto existencial que é o verdadeiro fio narrativa das película.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria pelo convite da cabine de imprensa para a produção desta crítica.
