Quando Supergirl deu as caras em Superman no ano passado, mesmo que por poucos momentos, já foi possível notar sua personalidade marcante. Interpretada por Milly Allcock, atriz estadunidense consagrada pelo spin-off de Game of Thrones, A Casa do Dragão, a garota de 26 anos já chegou mostrando que traria uma versão da personagem diferente. Agora, com a estreia de seu filme solo, Supergirl, essa sensação se cimentou.
Dirigido por Craig Gillespie (o mesmo do neurótico Eu, Tanya), Supergirl é um filme de super-herói nos moldes das produções de James Gunn: regado de muita música, bagunça, pancadaria, e, de maneira mais marcante, atitude. Bem como Superman, o novo longa-metragem da DC Comics conta com pingos aqui e ali da origem da sua protagonista, mas dá destaque ao que interessa, seu desenvolvimento, mesmo que, de maneira semelhante, não traga uma trama lá muito surpreendente, adaptando levemente a ideia do volume Supergirl: Mulher do Amanhã, de Tom King, ilustrado pela talentosa desenhista brasileira Bilquis Evely.
De início, vemos Kara, a prima do Super-Homem, curtindo a vida que Deus lhe deu, pulando entre bares intergalácticos enchendo a cara e vivendo em sua nave espacial em companhia do cãozinho Krypto. Em uma de suas saídas alcoólicas num desses planetas banhados por um sol vermelho, que lhe confere características mais próximas de uma mera mortal, acaba dando de cara com Ruthye (Eve Ridley, de The Witcher), a única sobrevivente de um ataque de bandoleiros espaciais, em busca de vingança.
Coincidentemente, o lar da menina encontra-se neste mesmo planeta, onde os bandidos presos, em meios de escapar, o que os leva a roubar o meio de transporte da nossa heroína dissimulada, não antes do líder deles, o malvado Krem (Matthias Schoenaerts), lançar um dardo envenenado em Krypto, debilitando-o. Com seu bichinho de estimação às portas do além, a três dias do dito cujo, Kara se vê obrigada a juntar-se à causa de sua nova amiga, relutantemente, depois de muita insistência dela, diga-se passagem, já que o bandido tem o antídoto para o veneno.

E é aí que a aventura se dá, com a busca das duas pelo atacante cheio de piercings (e muito provavelmente um belo de um bafo, só de ver seus dentes podres) que as leva aos cantos mais remotos da galáxia. Num deles, dão de cara com Lobo, personagem lendário criado por Simon Bisley para os quadrinhos e interpretado por ninguém menos que Jason Momoa, que está em busca da recompensa por um dos membros da gangue de Krem. Munido de seu charutão e correntes, sem falar de sua motoca, o cara não se mostra para muita conversa e nem para mais coisa no decorrer do filme, apesar de estar caracterizado de maneira muito fiel ao material.
Realmente, o cara curte uma boa briga, e é durante algumas das próximas que envolvem Supergirl e Ruthye que ele decide aparecer, provando ser uma aparição mais para agradar os fanáticos por HQs do que qualquer outra coisa, pois tirando um papinho rápido que compartilha com a menina enquanto encontram-se capturados mais pelo final da película, mal tem contato com nossas protagonistas. Parece que a DC utilizou Supergirl como estopim para uma eventual produção solo do caçador de recompensas mais fodão do selo, sem se preocupar com muito mais que isso.
Tirando essa participação que não adiciona tanto ao contexto geral do filme, Supergirl funciona dentro de seus limites narrativos estabelecidos. Temos a oportunidade de ver um pouco da vida de Kara em Krypton, inclusive sua conexão com a família de Kal-El, em algumas de suas melhores cenas, junto de sua eventual chegada à Terra e primeiro contato com seu primo, novamente interpretado por David Corenswet. Fica claro que a personagem carrega muita culpa por ser uma sobrevivente de uma raça quase que extinta, o que a leva a ser tão descuidada com sua pessoa e indiferente com os outros, algo que no decorrer do longa vai mudando, graças ao contato com o fervor e entusiasmo de Ruthye.
Nisso, Milly Alcock foi capaz de transmitir uma clara evolução por meio de sua interpretação. Claro que totalmente esperada e sem surpresa qualquer, afinal trata-se de um filme que envolve um dos heróis mais conhecidos por seu tremendo senso de esperança e tudo o mais, mas mesmo assim, a jornada de um ponto ao outro mostra-se divertida e com significado em Supergirl, mesmo carecendo de uma voz própria em meio às outras criações de seu produtor. Kara tem que se estabelecer e chegar ao ponto de finalmente se integrar à nova continuidade do universo cinematográfico da DC e é a missão que se cumpre no final de suas quase duras horas de duração.
Dito tudo sobre de suas idas e vindas, cabe comentar sobre a apresentação de Supergirl. É um filme muito colorido, com criaturas até que bem conceituadas, mas a um elemento dele que fica bem perceptível, só que negativamente: são os efeitos especiais. Em momentos de ação, muitas das animações ficam devendo, conferindo uma sensação de que estávamos assistindo a um videogame, nitidamente substituindo figuras reais por dublês digitais pouco convincentes. Em contrapartida, nas parte de cenários, a produção brilha, mostrando-se a grande aventura intergaláctica da vez para a DC, como Guardiões da Galáxia foi para a Marvel anos atrás.
Sua trilha sonora, por sua vez, é conduzida por Claudia Sarne (que assinou também as partituras de O Livro de Eli) e carrega bastante emoção, que junto de diversos hits atuais da música pop já existentes, combina da maneira já esperada com a pancadaria generalizada entre os bonecos que vemos pontualmente envolvendo nossas protagonistas. Não sabemos se foi um meio de agradar o público brasileiro no lançamento do filme por aqui, mas há uma cena pontuada pelo clássico de Tom Jobim Garota de Ipanema que saltou um pouco do resto da parte musical de Supergirl, curiosamente pintando do nada, sendo interpretada por alguns minutos enquanto Kara sentava a mão na bandidagem.
Em meio à pouca inovação, mas mesmo assim cumprindo seu papel de introduzir a prima de seu maior personagem ao atual meio de superproduções heróicas da empresa propriedade da Warner Bros, Supergirl não é algo que vai sacudir sua percepção sobre filmes de super heróis de maneira alguma. Ele promete e entrega uma divertida ida ao cinema para quem está em busca de mais do sabor leve e descompromissado apresentado por Superman em 2025.
Com distribuição da Warner Bros Pictures, Supergirl aterrissa nas telonas do Brasil afora amanhã, dia 25 de junho.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Warner Bros Pictures Brasil pelo convite da cabine de imprensa para a produção desta crítica.

