Muito tempo atrás, quando ainda participava de fóruns, encontrei o perfil de um usuário com a seguinte descrição: “videogames e minha vida ao redor deles”. Achei muito curioso, pois era exatamente como eu me sentia. Videogames sempre foram uma paixão desde quando me entendo por gente, nem sei explicar o porquê, mas assim como toda paixão, ela não se explica, simplesmente é. Assim, tentei muito juntar meu entusiasmo por games com minha vida profissional. Alerta de spoiler: falhei. Corta pra hoje, em que não apenas encontrei a paz com o rumo que minha vida tomou, mas também uma incômoda sensação de alívio.
Não que tenha certeza da estabilidade do meu atual emprego. No entanto, diferente dos heróis que seguem criando os jogos que amamos, não acordo todo dia com a sensação de ter a espada de Dâmocles sobre minha cabeça, sem saber se terei trabalho no dia seguinte, independentemente do sucesso ou fracasso da empresa que me contratou. Porque é isso que se tornou trabalhar com games.
A sensação é que não ficamos um mês inteiro sem notícias de demissões em massa e fechamento de estúdios. Não fossem ruins o suficiente, essas são somente uma pequena parte do cenário desolador que tem sido acompanhar videogames ultimamente, e não lembro de ter sentido algo parecido no passado.

Queria muito isolar todas as notícias ruins e focar somente nos anúncios, mas não dá. Motivo suficiente já seria o fato de eu não ser mais criança, só que mesmo tentando focar só no positivo, como hypar anúncios sem saber se verão a luz do dia? O cancelamento de Perfect Dark praticamente me causou dor física. Gosta de hero shooters? É bom se contentar com os que existem porque os novos não têm durado nem dois meses.
O fechamento dos servidores de Highguard, que durou por volta de 3 Concord (essa novíssima escala de desgraça), é sintomático do buraco que essa indústria se enfiou. Um monte de empresas correndo atrás do ouro de tolo que são os jogos serviço, um desperdício colossal de tempo, dinheiro e inteligência de profissionais que investem anos em projetos com ínfima chance de sucesso. Daí é o resultado de sempre: demissões e estúdios fechados.
Só que existe algo de muito perverso em ver esse “resultado de sempre” em empresas que vão muito bem obrigado. Epic Games, Microsoft e Sony anunciam lucros substanciais ao mesmo tempo em que mandam centenas pro olho da rua. A desculpa vem geralmente na forma de “sustentabilidade do negócio a longo prazo”, palavras vazias pra esconder o real motivo: satisfazer a sanha de acionistas pela irreal busca do crescimento exponencial e infinito.
Aliás, o que aconteceu com a Sony está na esfera do surrealismo. A receita da divisão PlayStation é a mais alta da história, a principal concorrente foi praticamente enterrada, a empresa deveria estar nadando de braçada. Na prática, disparou vários tiros de espingarda no próprio pé. Anos e bilhões de dólares investidos em – advinhem – jogos serviço sem futuro e a aposta furada em focar somente nos títulos AAA, resultando em minguados um ou dois lançamentos ao ano. Nem o sucesso de Astro Bot foi o suficiente pra fazê-la acordar e investir em projetos menores.

Óbvio que a Sony não é a única empresa a cair na armadilha dos AAA. Gráficos fotorrealistas, mundos abertos e toda a gama de exigências do jogador moderno têm cobrado um preço muito alto, em tempo e dinheiro. Não fossem suficientes os problemas da demora e do custo de serem feitos, há também o risco, em que qualquer coisa abaixo de milhões de vendas pode representar o fim de uma empresa. Vão pro vinagre a criatividade e projetos arrojados em favor da aposta segura. Não era pra ser assim.
Ainda nem cheguei a mencionar as coisas que, na minha visão, podem contribuir diretamente pro colapso: IA generativa e altos preços. Foi lindo de ver a fúria coletiva contra o DLSS 5, mas não estou certo de que seja o suficiente pra conter o desejo de executivos, caso a ferramenta se mostre efetiva em diminuir custos. O que em português claro significaria demitir artistas em favor de usar a ferramenta que deixa personagens com cara de filtro do insta e iluminação porca, como se o jogo tivesse rodando naquele estourado modo dinâmico da TV. É cruzando essa linha o ponto em que me veria pensando, talvez junto de muitos outros, “tô de boa” e arranjaria outra coisa pra fazer.
Preços altos já são um fator mais complicado de comentar, pois videogames nunca foram baratos no Brasil. Mas uma medonha combinação de guerra no Oriente Médio, crise dos componentes de memória RAM e tarifas de um presidente senil, fez romper pela primeira vez no mundo inteiro o conhecido ciclo dos consoles diminuindo de preço ao longo da geração. Com preços aumentando ao invés do contrário, toda uma massa de consumidores que adentrava à geração por volta da segunda metade será deixada de fora. E se as condições estão ruins agora, a quanto chegarão os consoles na próxima geração? Parabéns, colegas europeus e estadounidenses, agora consoles também são um artigo de luxo para vocês também.

Não tenho respostas que possam aliviar ou resolver todos esses problemas e duvido muito que as empresas envolvidas também tenham. Só espero que ao invés de todas se darem as mãos e caminharem até o abismo, façam um esforço coletivo para corrigir a rota antes que um segundo “crash dos games” bata à porta.
Queria terminar essa sessão de descarrego com uma nota mais otimista, jogando à luz o brilhante trabalho dos jogos indies. Não estão imunes a problemas, claro, mas apresentam inúmeras características que estão faltando a empresas maiores: projetos menos ambiciosos, mais autorais, por vezes mais arriscados e por preços mais acessíveis. É possível que as coisas piorem mais um pouco antes de melhorar, mas espero voltar num futuro próximo com um artigo chamado “O Estado Admirável das Coisas”. Até lá, vamos seguindo, na esperança de dias melhores.
