Criação do desenhista John Romita Sr. e do roteirista Len Wein, Wolverine teve sua tímida estreia nos quadrinhos como vilão do Incrível Hulk, em 1974. Baixinho, raivoso e dotado de um poderio físico impressionante, o canadense deu trabalho ao Gigante Esmeralda nesse volume e veio a se tornar um dos maiores personagens da Marvel depois de passar por uma reformulação e pular para o lado dos heróis. De origem misteriosa, tema amplamente explorado por seus quadrinhos, como Arma X e Origem, com isso mantendo-se na crista da onda da popularidade por décadas.
O mutante das icônicas garras já teve sua parcela de videogames também, a maioria de qualidade duvidosa, como o “clássico” da famigerada LJN para o Nintendinho. Até então, a interpretação jogável do baixinho de maior renome foi X-Men Origins: Wolverine, de 2009, desenvolvido pela Raven Software e lançado pela Activision para Xbox 360, PlayStation 3, Wii e PC. Ironicamente, um produto atrelado ao – de longe, MUITO longe – seu pior filme de mesmo nome, o jogo trouxe um nível de violência que equiparou-se à brutalidade inerente de Logan, algo que outros títulos careceram a fim de se tornarem produtos adequados a um público mais jovem.
Agora, chegou a vez da Insomniac Games, a mesma responsável pelas versões jogáveis do Homem-Aranha, de oferecer uma experiência interativa estrelada pelo Carcaju. Marvel’s Wolverine é sangrento, de boca suja e não ignora uma garrafa de uísque quando uma surge à sua frente, bem como seu protagonista, uma versão mais cabisbaixa e emotiva do cabeludo de carência vertical, que embarca em uma aventura junto de outros personagens marcantes da Casa das Ideias, como Mística, Dentes-de-Sabre, Jean Grey e Nathaniel Essex para combater a ameaça de um de seus principais malfeitores, Bolívar Trask, ninguém menos que o criador das temidas Sentinelas.
Ao contrário de Marvel’s Spider-Man, Wolverine não se passa em um mundo aberto, e transcorre de maneira linear. Entre suas fases, há momentos de certa liberdade para percorrer ambientes interagindo com objetos e outros personagens com o intuíto de desenvolver a história tanto principal quanto secundária do jogo, em que, de seu jeito, ele tenta contar sua interpretação dos acontecimentos que levaram Wolverine a ser o que é.

A ação é, tranquilamente, a melhor parte do jogo, mas o desenvolvimento de roteiro não deve ser descartado por completo, ainda mais porque serve como uma desculpa para entregar algumas das atividades complementares, como os pesadelos, testes de habilidade que se dão tanto entre quanto dentro das fases de Marvel’s Wolverine. Dito isso, em termos estruturais, ele funciona de modo bastante semelhante aos jogos “da antiga” de gerações passadas, como os God of War do PlayStation 2, em que a jogabilidade de base já é apresentada logo de cara e acaba sendo pouco evoluída no seu decorrer, com sistemas de evolução que estão lá mais para fazer números subir e ter no que investir seus pontos de habilidade. Isso fica claro ao se ver os diversos uniformes do herói da vez, que além de trocar seu visual, só servem mesmo para subir um ponto sua barrinha de vida, ou as suas garras… elas nem mudam muito cosmeticamente e trazem menos ainda para adicionar algum tempero à pancadaria.
Outros colecionáveis como as garrafas de uísque servem para oferecer mutações especiais que incrementam as habilidades do nanico, como, por exemplo, fazer de seus ataques um jeito de se curar, mas sem variar tanto o que o jogo já entrega bem por si só. É no combate que Wolverine brilha, mas é nele que também mostra suas limitações, por não trazer uma variedade significativa de inimigos nem de situações de perigo que forcem o jogador a mudar sua estratégia, o que, por consequência, gera repetição, mesmo que ainda seja bastante divertido dilacerar tudo em seu caminho com as lâminas do futuro X-Man.
O ator Liam McIntyre faz o que pode em sua encarnação do personagem da Marvel que dá nome ao jogo. Depois de quase três décadas com Hugh Jackman definindo a versão carne e osso de Logan nos cinemas, no entanto, a missão de superá-lo vem a ser quase que impossível de ser cumprida, mas o que é trazido no game é bastante convincente, e melhor até que sua participação na atual temporada do desenho animado X-Men ‘97. Outros consagrados atores de videogame como Troy Baker e Debra Wilson também dão atuações bacanas, que limitadas pelo que o roteiro oferece, não chegam, obviamente, a ocupar a tela tanto quanto McIntyre.

A apresentação de Marvel’s Wolverine está a par do que nos foi servido com os jogos do Homem-Aranha. Personagens bem animados contracenam em cenários detalhados e repletos de interatividades – melhor dizendo, coisas destrutíveis – mesmo não havendo muito o que percorrer quando comparado às viagens por via das teias de Peter Parker e Miles Morales. A direção de cenas é boa e convém a tensão das muitas situações de perigo em que Wolverine se mete, mesmo sem haver uma trilha sonora de peso nem de perto similar às apresentadas nas aventuras do aracnídeo. No geral, é bonito de se ver, mas pouco memorável.
Para o público brasileiro, Wolverine conta com localização (quase que) total para o nosso idioma. O “quase que” se dá ao curioso fato dos nomes dos personagens não terem sido traduzidos, algo que já aconteceu antes em Marvel’s Spider-Man, por mais estranho que isso possa ser, ainda mais porque em todos os outros produtos da marca, como os próprios quadrinhos, filmes, animações, brinquedos e o que mais for, eles aparecerem adaptados ao nosso cenário. Fora essa curiosidade, o trabalho de dublagem é bom, mesmo com o uso excessivo e ocasionalmente inadequado de coloquialismos nas falas dos personagens. Dá para entender Logan trazendo seus bordões, mas Esses, alguém que viveu por séculos, falando como um adolescente? Aí é forçação de barra, né não?
No fechar da conversa, Marvel’s Wolverine é um jogo de ação que teria se beneficiado de um escopo mais contido, o que o faria sugerir menos o potencial não explorado que o produto final deixa óbvio. Sistemas de desenvolvimento de personagem que não chegam a lugar algum, brincadeiras cosméticas que não vão além de mera nostalgia (outro aspecto que Homem-Aranha fez melhor) e pouca variedade fazem deste ser um título divertido, porém estendido muito além do necessário.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Sony PlayStation do Brasil pelo envio do código de jogo para a produção deste review.
