Muitas vezes, uma história envolvente e bem desenvolvida é suficiente para tornar completa um produto de entretenimento. No caso de Neve, o novo jogo do grupo brasileiro Ritus Studio, é a mais pura verdade. Desenvolvido para ser uma experiência narrativa tensa e dependente de suas decisões, consegue ser um sucesso, mesmo que partes dadas como importantes, como a apresentação, deixem um pouco a desejar.
Jogando no papel da capitã de uma nave futurista de carregamento de produtos perecíveis, cabe a você resolver o grande pepino em que se encontra, já que sua tripulação é sua única esperança para escapar com vida de um planeta hostil no pouco tempo de vida que ainda tem. O problema é que está presa em uma câmara de criogenia e suas colegas não são das mais confiáveis…

Neste cenário diabólico, Neve constrói uma história de maneira brilhante, tecendo temas recorrentes da ficção científica como desconfiança, paranóia e o medo constante em uma verdadeira manta dramática que, de maneira pouco surpreendente, remete muito a um dos grandes clássicos do gênero, Alien: O Oitavo Passageiro.
E nisso, há outra ruga bastante interessante: a história não é linear. É possível mudar o curso dos acontecimentos do jogo em pontos-chave da sequência, em que suas decisões mudam o rumo da coisa de maneira binária, ou seja, mesmo tendo somente duas opções, as permutações multiplicam-se a cada encruzilhada. Na tensão, muitas vezes o caos toma conta e você acabará cometendo verdadeiras cagadas, mas como todo bom jogo nesse estilo, terá que viver com as consequências dos seus atos.
Apesar de ser um jogo que segue uma cartilha mais próxima à de uma visual novel, bem como Paranormasight, que falamos há alguns meses, Neve, bem como o jogo da Square Enix, consegue ter camadas, não só as atreladas às suas decisões e os caminhos percorridos, mas também com seus personagens. Mesmo com um elenco limitado, o que há em Neve é um desenvolvimento bem pensado dos participantes da história, críveis, humanos, e mais importante, repletos de nuances.

A única parte do jogo que peca um pouco é sua apresentação. A arte em si é bem desenhada, mas há uma limitação clara na quantidade de quadros presentes para retratar os acontecimentos da história, que mesmo não tendo animações convencionais para comunicar emoções e diálogo, não carrega o mesmo nível de comunicação e qualidade, deixando muito da imaginação dependente do texto. Por sorte, o roteiro é excelentemente construído e faz ótimo proveito de sua qualidade, quase compensando essa falta no caráter ligado ao audiovisual.
Dada a devida valorização aos momentos do jogo que funcionam, Neve mostra-se um jogo com alto apelo por sua narrativa e temática, ambas áreas de extrema força que essa produção brasileira possui. Depois de testemunhar a qualidade deste aqui, ficamos ainda mais entusiasmados com a promessa de Thargelia, o próximo e ambicioso título do estúdio, focado em multiplayer cooperativo, ainda em desenvolvimento. Será com muito prazer que iremos comentar sobre ele quando estiver disponível.
Agradecimentos do Entertainium Brasil à equipe de assessoria de Neve pelo acesso antecipado ao jogo para a produção desta matéria.
