Tenho muitas lembranças do lançamento da série Mega Man Star Force no (agora) saudoso Nintendo DS. Inicialmente chegando no console no final dos anos 2000, eles foram jogos muito polarizadores — me recordo de, como leitor assíduo de revistas de videogame que eu era na época, ler vários reviews xingando o jogo, falando que era mais do mesmo ou que o 3D era muito mal-feito.
Cá estamos quase 20 anos depois e a série Star Force recebe o tratamento Legacy Collection, no ano em que as compilações do robô azul completam onze anos desde seu início com a fase clássica. Essa é a única subdivisão da franquia que eu não havia tocado anteriormente, e ao começar cada um dos jogos ecoava em minha cabeça os distantes reviews de antes. O que eu achei? Bem, não sei se o distanciamento histórico ajudou, mas eu gostei bastante e não entendi muito bem o ódio manifestado duas décadas atrás.

Antes de qualquer coisa acho importante contextualizar essa série: ela é uma sequência distante de Mega Man Battle Network. Pequenas referências ao capítulo anterior estão espalhadas pelos três jogos, e a jogabilidade como um todo bebe muito da série também — tanto seu antecessor quanto Star Force são RPGs de cartas com ação em tempo real, mas em outra perspectiva. O que também muda é a ambientação: sai a narrativa obviamente inspirada pelo enorme otimismo e senso de surpresa com os primeiros passos da internet entra uma rede de conexão ainda mais avançada e que nutre todo o mundo e alienígenas.
Em um primeiro momento essa nova ambientação não me chamou tanto a atenção — tenho alguns problemas com histórias introduzindo alienígenas em contextos que não parecem que eles caibam tão bem, mas as interações entre os personagens foram me cativando, em especial no primeiro jogo. O primeiro Star Force trata do protagonista, Geo, e como ao encontrar um alienígena chamado Omega-Xis vai conseguindo lidar e sair da enorme depressão que estava nos anos anteriores ao começo da narrativa por conta da morte de seu pai em uma missão espacial.
Se fundindo com seu amigo extraterrestre, ele vira o Mega Man dessa franquia e começa a ter influência e salvar seus colegas dos mais diversos problemas — com o importante detalhe que esses problemas são, na verdade, questões pessoais e pesadas que crianças estão lidando neste mundo.
É claro que eventualmente ele salva o mundo, mas essa curiosa ambientação colocando cada mini-arco do primeiro título quase que como um desfio para os vilões encararem seus defeitos e dificuldades ou mesmo os ciclos de abuso que passam ou passaram é funcional para prender o jogador — em especial o próprio protagonista, que termina o jogo completamente diferente e curado.

Os jogos seguintes não me prenderam tanto na história, mas melhoraram suficientemente a jogabilidade, com novas opções, tipos de ataques/cards e combos para que eu estivesse mais focado nas batalhas do que na narrativa. Inclusive, essa compilação conta com todas as versões dos três jogos (assim como a segunda metade de Battle Network, Star Force era vendido em versões separadas para incentivar a troca dos cards exclusivos de cada versão, em mais um exemplo da escola Pokémon); em geral as diferenças entre elas não são gritantes, mas para platinadores a coleção pode durar muitas horas pela grande quantidade de vezes que cada jogo terá que ser terminado.
A coleção também conta com melhorias de qualidade de vida como desligar os encontros aleatórios (o que eu usei muito em certas Dungeons do jogo em que a quantidade deles ficavam insuportável), diminuição da dificuldade do jogo a partir de certos upgrades disponíveis desde o começo do jogo e multiplayer online — esse último sem crossplay, o que é uma pena. Das partidas que joguei, a conexão estava ótima, mesmo que o ritmo frenético tenha me feito ficar um tanto incomodado em como jogar aquilo numa tela grande não pareça tão confortável quanto potencialmente era no DS.

E se estamos comparando com os originais, é meio claro que a pergunta mais comum é sobre a adaptação das duas telas para uma única na compilação. As soluções são muito parecidas com o que a Konami fez no Castlevania Dominus Collection e a própria Capcom também havia utilizado anteriormente em Megaman Zero/ZX Legacy Collection, mas confesso que uma em especial foi a que mais me atraiu só que não pude testar por não ter um monitor rotacionável: a opção de deixar as duas telas na mesma configuração do DS caso o dispositivo tenha modo retrato. Deve ser uma experiência bem interessante e provavelmente a mais fiel, mesmo que as situações originalmente resolvidas na tela de toque agora sejam todas feitas por botões.
No fim, Mega Man Star Force Legacy Collection é mais um exemplo excelente do carinho que a Capcom vem tendo com o seu primeiro mascote nos últimos tempos. Cheia de extras e disponibilizando jogos de maneira ampla, ela tem bons jogos mesmo que alguns brilhem por história e outros pela jogabilidade mais evoluída. Com ela, a empresa só precisa lançar os dois Mega Man Legends em plataformas modernas para todos os jogos principais do robô azul estarem preservados oficialmente, então aguardemos o futuro para saber se, além do próximo título da franquia clássica, os capítulos mais esquecidos também poderão conhecer um novo público como aconteceu com a sub-série do DS.
O Entertainium Brasil agradece a assessoria da Capcom no Brasil pelo código de acesso ao jogo para a produção desta matéria.
