Review: Schrödinger’s Call é uma visual novel encantadora, melancólica e criativa ao extremo

Schrödinger’s Call é o mais novo título da Shueisha Games, desenvolvido e estreado pelo estúdio Acrobatic Chirimenjako, em que encontramos uma produção audiovisual muito potente e uma excelente narrativa. A visual novel apresentou seu trailer no evento Women-Led Games deste ano e já tem avaliações ‘muito positivas’ na Steam, merecendo muito mais destaque do que já tem. Pois é, evidentemente, uma obra criada com muito carinho e apreço por esse gênero dos videogames. Confira a seguir o que concluímos!

Mary, de repente, surge numa sala escura e quase vazia, com um telefone antigo sobre uma mesa, uma poltrona e alguns quadros indistinguíveis na parede. Existe uma atmosfera esquisita em seu entorno, como se o tempo tivesse parado e tudo perdesse sua cor, e ela perdeu toda sua memória. A princípio, reconheceu seu próprio nome pelo gato preto, o Hamlet, que surge na mesa de tempos em tempos e com quem conversa e confabula pensamentos ao longo de todo o jogo.

Hamlet serve como um guia para sua longa jornada de descoberta, sendo relevante que Mary tenha idade entre 11 e 17 anos. Ela também possui um caderno, onde vai anotando todas as suas descobertas, dúvidas e conclusões. Mas sobre o que? Sobre quem?

Após o trágico fim do mundo pela queda da Lua na Terra (!), Mary se depara com a incrível tarefa – a que é sobrenaturalmente incumbida – de ajudar almas arrependidas e/ou ressentidas, ainda com grandes pesares que as impedem de seguir adiante e fazer a passagem para a morte definitiva. Isso nos 21 nanossegundos antes do fim dos tempos, que fazem parecer imóveis durante a narrativa. O espaço que ela ocupa, portanto, não é o plano terreno ou realístico.

Schrödinger’s Call
O momento a momento de Schrödinger’s Call é incrível, mantendo um ritmo divertido e emocinante do começo ao final!

A comunicação com essas pessoas é feita pelo telefone, bem à sua frente. Ao longo de Schrödinger’s Call, você precisa discar os números de cada personagem e ajudá-los a se recordar o que aconteceu em suas vidas, fazendo com que Mary seja sempre o vetor dessa premissa. Quanto mais lembranças, ligações entre personagens e fatos muito felizes ou tristes vêm à tona, mais se progride e, de forma muito emocionante, tais personagens devem se libertar de seus ressentimentos e sumir para a eternidade, mais aliviados. 

É uma história incrível, muito bem escrita e, como você deve ter imaginado, “de chorar”! Então é bom preparar alguns lencinhos ao seu alcance, pois nesse ponto Schrödinger’s Call não vai ter misericórdia. Assim como não teve conosco e arrancou, sim, algumas lágrimas!

Como em visual novels clássicas, é preciso escolher frases e palavras na conversa gradual e facilmente progressiva com cada personagem. Não há nenhuma dificuldade nisso, visto que o andar do jogo quase independe de suas seleções e, para o bem e para o mal, não possui vários finais. Existe um momento de tira-teima nos momentos finais de cada capítulo, apenas, mas o desafio é bem amaciado, ainda, pelo caderninho da protagonista. É seguro não aprofundar mais nessa parte para evitarmos spoilers.

Schrödinger’s Call parece ter artes muito simples, mas é apenas uma impressão inicial. Cada uma é muito bem feita e muito bem animada, contextualizada no momento a momento, garantindo máxima imersão na história. É tudo bem desenhado à mão, com uma direção de arte única e exemplar (nada de porcaria de IA generativa aqui, felizmente), que faz o design de lindos personagens antropomorfizados estarem sempre sincronizados com suas emoções e a programação do jogo em si.

Schrödinger’s Call
Faça ligações e empatize com personagens que mudarão o curso da narrativa em cada hora que se passa nesse lindo visual novel.

Tais personagens têm um estilo de mangá, desenhados da cintura para cima, sendo muito bem caracterizados e apresentados. Mesmo que em preto e branco, o traço chega a surpreender e encher os olhos muitas vezes. Poucos visual novels chegam a esse patamar, hoje em dia.

Ficaríamos por muito tempo escrevendo sobre os pontos fortes de Schrödinger’s Call, então convém elencar rapidamente o que mais chama a atenção:

  • Uma explosão audiovisual na tela: suas animações são realmente muito bem trabalhadas e encaixadas perfeitamente à proposta do gênero, agregando muito ao ritmo agradável dos capítulos, além de;
  • Conter vozes gravadas e estilizadas, em japonês todo distorcido e reproduzidas ao contrário (o que gera um efeito bastante interessante e um pouco repetitivo para muitas horas de jogo, mas que se torna algo confortável na maior parte do tempo). Esse atributo foi uma jogada de mestre, tendo em mente que um jogo mudo nos diálogos (alô, Pokémon!), na atualidade, é consideravelmente mais maçante;
  • Músicas incríveis e bastante variadas, tão marcantes e harmonizadas com os distintos momentos da jogatina. Todas são bem mixadas e ajudam a construir uma atmosfera sombria e melancólica, propositalmente;
  • Há de se dizer, por último, o quão incríveis os desenhos do caderninho de Mary são também. A cada página, seus lindíssimos e talentosos rabiscos tomam forma e seguem a temática do assunto em cada instante, deixando bem claro o que se está passando nas tramas dos personagens. É um espetáculo à parte que merece muito destaque pela pura beleza dos desenhos em P&B e coloridos.
Schrödinger’s Call
Vai dizer que os personagens antropomorfizados são genéricos nesse jogo?! Cada um tem um traço único e muito lindo, dando mais variedade ao jogo e contribuindo com seu ritmo agradável.

Embora tenhamos gostado demais de Schrödinger’s Call e enxergado suas grandes e evidentes qualidades, ele possui, lá, suas limitações e pontos fracos. A começar pela repetição persistente de diálogos e pensamentos em cada capítulo. O uso das anotações da protagonista em seu caderno existe para que informações sejam rapidamente lembradas e, logo, não há tanta necessidade de tantas voltas em torno de assuntos já conversados (com outros personagens como Hamlet, Violet, Lucy ou Thomas) ou pensados (Mary consigo mesma), o que estende desnecessariamente sua duração além do que deveria.

Esse ponto reforça fatos e expõe claramente alguns momentos mais importantes da narrativa, mas, novamente: é desnecessário. A não ser que a pessoa jogadora seja uma criança, então talvez este argumento cai por terra, já que o reforço de informações pode ser útil para um progresso ainda mais facilitado. Porém, a ausência de desafios grandes reforça a natureza dispensável de várias revisões de linhas de texto a quem está no controle.

O jogo também parece feito para mobile e telas menores, de portáteis (Switch 2 ou Steam Deck, por exemplo): a escala dos desenhos, animações e, principalmente, dos textos preenche demais a tela. Isso foi desfavorável à experiência que tivemos, causando uma sensação constante de cansaço visual excessivo após poucas horas ao ser reproduzido numa tela de 24”. Fica este adendo, caso esteja pensando em jogá-lo numa TV ou monitor.

Schrödinger’s Call parece ser simples demais e se perde em meio a uma montanha de visual novels da Steam e do Nintendo Switch, mas sua bela e emocionante profundidade se esconde após algumas horas de jogo ou na sua metade final (depois de 7, 8 horas, mais ou menos).

Sua premissa e a narrativa em si parecem ser bobas, mas carregam uma mensagem incrível sobre relacionamentos, traumas e o pós-vida, sendo muito bem apresentadas em uma elegante harmonia muito impressionante entre design, direção de arte e trilha sonora. Após muito nos emocionar, Schrödinger’s Call é a sua escolha certa de visual novel, já estando entre uma de nossas melhores experiências do ano. Portanto, não deixe de jogar – e de atender a esse chamado!

O Entertainium Brasil agradece a assessoria do jogo por ceder um código de teste para a produção desta matéria.

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