MOTORSLICE foi desenvolvido pelo brasileiro Regular Studio e adiciona uma visão muito autoral com diversas mecânicas. Foi muito inspirado por jogos da 6ª geração de consoles e de Prince of Persia, sendo focado em desafios de plataforma, e até no aclamado Shadow of the Colossus, trazendo chefes gigantescos. Seus propósitos de jogabilidade são muito claros, ao contrário da narrativa. Mas estes conseguem se sustentar ao longo da jogatina, além de pontos tangentes? Confira a seguir.
O sol está a pino quando P chega na Megaestrutura com seu ‘Orbie’, um drone esférico que te dará assistência para cumprir sua única missão: destruir cada máquina presente nesse mundo e sair dali o quanto antes. Porém, nos primeiros minutos, uma interferência horrível acomete o drone e o sinal com a central de comunicação é perdido.
A presença do drone é trocada, contudo, pela nossa perspectiva (sim, a da pessoa jogadora!) e, logo, ele fica mudo, acompanhando a jornada da protagonista de perto e por trás de suas costas, ou seja, funcionando como a câmera do jogo. Uma referência direta à de Super Mario 64, tornando a câmera uma existência física (e até filosófica, nesse caso) no mundo e mais ou menos influente à construção da personagem principal (P).
P é aparentemente muito jovem, usa um uniforme laranja e carrega consigo uma espada em forma de serra, capaz de destruir qualquer máquina. Ela tem sede de destruição, é focada no trabalho, mas se cansa após cada desafio como qualquer ser humano.

Em pausas pontuais nos cenários, P conversa com seu Orbie sobre assuntos triviais e comenta a respeito da sua missão, mas nunca sem se aprofundar em assuntos ou revelar mais sobre a história daquele espaço ou da sua própria personalidade. Nesses diálogos, chega a reclamar do ambiente e de todas as suas irritações após correr por quilômetros sobre areia a concreto puro, em construções brutalistas e passa por máquinas ou veículos gigantescos a perder de vista.
É também nessas conversas que nos deparamos com um drone extremamente horny (safado, insinuante e flertador)! Orbie não se cansa de paparicar a protagonista e, sim, isso se mantém e incomoda de certa forma, dada a suposta personalidade incumbida ou forçada a um simples robô. Isso revela uma relação humano-máquina quase amorosa que não é difícil de encontrarmos hoje em dia em nossa sociedade, inclusive. É a distopia que já não é mais distopia, já é uma possibilidade tangível dentro da atual realidade. A não ser que faça parte da própria personalidade de P em forma de reflexo, esse aspecto é uma decisão duvidosa e esquisita para o design da obra, tendo um significado muito vago – e nenhum impacto relevante para o mundo.
Em MOTORSLICE, você terá de superar muitos desafios de plataforma: deslizar por paredes, pular muito, evitar obstáculos, balançar em barras de ferro e cair nos espaços corretos. Também, até certo ponto, será preciso manipular algumas plataformas e usar sua espada-serra para navegar por superfícies bem demarcadas. Tudo isso seria satisfatório se os controles não fossem pouco responsivos, desengonçados e difíceis de dominar, além da dificuldade que escala e, logo, piora a experiência ao longo do jogo. A execução, nessas partes, exige quase que a perfeição muitas vezes, o que pode ser bem frustrante.
P precisa enfrentar máquinas de construção pelos cenários homogêneos da Megaestrutura, as quais são poucas e bem previsíveis. O combate é bem simples, baseado no ataque direto e no parry (ambos realizados no mesmo botão), o que torna tudo ainda mais repetitivo e maçante. É nas lutas contra chefes gigantes que MOTORSLICE brilha.
Muito inspirado em Shadow of the Colossus, os enormes robôs no fim de cada capítulo são maquinários de construção com poder incrível. Cada um exige uma estratégia diferente para evitar seus ataques, contra-atacar quando possível e escalar suas partes segmentadas – serrando-as, uma de cada vez – a fim de zerar sua barra de vida total. No corpo de cada um é que os desafios são bem expressos e colocados, já muito bem introduzidos anteriormente nas fases.

Só aí é que P progride, mas é preciso muita paciência e capacidade de entender o que o jogo está demandando de você. São lutas épicas, duradouras e marcantes, além de satisfatórias em sua maioria. É, de longe, o ponto mais alto de MOTORSLICE.
Se a experiência como um todo fosse resumida a desafios mais enxutos, “dungeons” muito menores e melhor elaboradas, muito menos combate até chegar nos chefes (ou até sua ausência) e uma narrativa com um pouco mais de alma na escrita e na construção de mundo (aqui, o tema distópico cai como uma luva, portanto), o novo título do Regular Studio seria um primor! Entretanto, optou-se por extendê-lo demais, apostando em múltiplas mecânicas pouco funcionais.
É recomendável que se vá para MOTORSLICE com as expectativas ajustadas. Ele oferece uma jogabilidade competente, sim, mas poucos elementos dele agradam de verdade e os controles não respondem como deveriam. Os cenários são muito homogêneos, iguais em todas as fases; há pouquíssima variedade de inimigos e a maioria das mecânicas não satisfazem ao longo das horas que você passará na Megaestrutura. É como se o seu tamanho e escopo funcionassem apenas para a parte dos chefes, realmente. Todo o resto fica meio desconexo e o clímax se esvai facilmente.
Além disso, sua narrativa nunca vai além de uma história de ficção científica pós-apocalíptica bem pensada, ficando numa tediosa e desinteressante superfície mal explicada (quase não há comentários sobre o porquê das coisas se apresentarem assim). MOTORSLICE fica nos devendo até nisso, sendo uma decepção em grande parte. Apesar de tudo, seu primeiro terço entrega muita ação, momentos únicos e um satisfatório loop de desafios – que só fica maçante e repetitivo nos ⅔ finais. Vale dar uma chance, se for seu tipo de jogo.
