Review: Lego Batman: O Legado do Cavaleiro das Trevas é um jogo em conflito com suas 2 inspirações

Lego Batman 1

É difícil acreditar que estamos próximos dos 20 anos do primeiro Lego Batman. É um dos jogos que tenho muitas memórias na minha infância, até por eu não ter acesso ao PS3 e Xbox 360 na época e a série Arkham, iniciada também em 2008, me era muito distante — então meu querido Nintendo Wii fritou muito com aquele título de blocos de montar representando o mundo de um dos meus super-heróis favoritos. 

Agora em 2026, ano em que a franquia atinge a maioridade no Brasil, a Warner Bros. Games lançou Lego Batman: O Legado do Cavaleiro das Trevas, um título que ao mesmo tempo é o quarto capítulo da série também é o segundo jogo a seguir uma nova fórmula para os jogos da Lego, depois de Lego Star Wars: The Skywalker Saga. Sendo sincero, ele funciona bem melhor que seu irmão espacial, mas não sem problemas recorrentes em toda história do entretenimento digital da gigante dos blocos de montar.

Lego Batman

A proposta de O Legado do Cavaleiro das Trevas é contar uma trajetória longa do Cavaleiro das Trevas, desde seu treinamento, primeira aparição em Gotham como o herói, treino e “formatura” do primeiro Robin e seus encontros com vários inimigos icônicos. A proposta, de fato, é megalomaníaca — todos esses pontos nas HQs são contados ao longo de várias sagas e, em adaptações para outras mídias, em diversos filmes ou temporadas de séries e desenhos.

Condensar em uma narrativa de 12 horas coerente e concisa é interessante, funcional mas ao mesmo tempo muitas vezes parece mais um festival de referências jogadas aleatoriamente o que, para mim, gerou vários momentos de “ei, eu sei do que eles tão falando aqui!” mas ao mesmo tempo não parece trazer tanta substância real ao material.

Isso cria uma dinâmica interessante, já que ao mesmo tempo que esse fan service, na falta de termo melhor, pode parecer vazio, é inegável que ele é aplicado de tal maneira que é inegável ver o quanto os desenvolvedores amam o morcego de Gotham — fato explicitado pelo fato do jogo ter contado com apoio dos desenvolvedores da franquia Arkham, a Rocksteady, para certas decisões de jogabilidade e mesmo narrativa. 

De certa forma, isso torna Lego Batman: O Legado do Cavaleiro das Trevas um sucessor espiritual da série Arkham a jogabilidade e o sistema de combate são os desenvolvidos pela Rocksteady mas bem simplificados, a exploração do mundo aberto — este, muito mais repleto de desafios e interações do que o de Arkham Knight, por sinal — bebe muito do que a desenvolvedora criou na trilogia, mas tudo com um humor e interações muito mais comuns aos jogos da Lego. É uma mistura interessante e que funciona bem, mas traz algumas frustrações inerentes por, em certos momentos, ele parecer não saber em quais dos espectros quer realmente se encaixar. 

Quando Lego Batman tenta ser mais próximo da série Arkham, o fato do jogo ser “para crianças” e ter que ter muitas coisas simplificadas torna ele uma experiência parecida mas extremamente trivial, sem nenhum tipo de profundidade de sistemas. Ao mesmo tempo, quando ele tenta ser mais Lego, as adaptações necessárias para que as semelhanças com os jogos da Rocksteady continuem funcionando faz com que ele se torne uma experiência das menos criativas no histórico da Traveller’s Tales — bem melhor que Skywalker Saga, mas ainda sim estranhamente entediante depois de um certo ponto. 

É como se existisse uma tensão inerente entre os dois tipos de jogos que constituem O Legado do Cavaleiro das Trevas, e em nenhum momento ela é resolvida de forma realmente satisfatória. Na reta final do jogo confesso que estava exausto, não por ser um jogo “ruim” mas sim por nenhuma das duas partes se sustentarem suficientemente bem. Fiquei pelo apego ao personagem, mas fico imaginando quem não o tem como lidaria com essa experiência.

Mesmo assim, há de se retomar o ponto narrativo do jogo e, embora críticas a forma que a chuva de referências seja realizada são sim aplicáveis como comentei mais acima, é também extremamente satisfatória a forma que conseguiram encaixar de alguma forma 8 narrativas muitas vezes de universos diferentes e com versões diferentes dos personagens em uma progressão coerente. O Coringa de Jack Nicholson conseguir se transformar no de Heath Ledger com naturalidade é algo digno de aplausos, assim como a evolução do Batman ao longo do jogo e também a progressão de Robin para Asa Noturna — tudo isso em uma clara roupagem humorística típica de Lego Batman.

Posto todos esses pontos, acredito que meu veredito para Lego Batman: O Legado do Cavaleiro das Trevas é um grande misto de sensações. Ele falha em coisas que, para mim, diminuem muito sua qualidade como videogame, ao mesmo tempo que acerta em outras que o elevam bastante. Fica a impressão que sempre que ele dá dois passos rumo a excelência, logo depois ele retraça o caminho para ser só “ok”. 

Ao mesmo tempo, essa minha avaliação talvez seja um sintoma do momento atual da indústria de videogames: se eu fosse quantificar em um número minhas impressões com Lego Batman, seria um 7 — o que hoje é considerado um jogo que não merece muita atenção, mas há pouco mais de 15 anos, perto da época do nascimento da franquia, denotava um jogo suficientemente bom e satisfatório para entreter por muito tempo.  

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